SóProvas


ID
1121764
Banca
ESAF
Órgão
MF
Ano
2014
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS

“O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a flha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fm de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia a seus olhos! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfm, uma vida regalada.

Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.

Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo de que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fzesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. - "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês! "Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!"

Os chefes da seção levaram-me aos ofciais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"

O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.

A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pince-nez no nariz e perguntou: " Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Àsia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fca adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no congresso de Lingüística. Estude, leia o Hove-Iacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.”

Leia atentamente o texto acima, trecho extraído de um conto de autoria de Lima Barreto, publicado no início do século XX. Tendo-o em mente, analise as afirmativas subsequentes, classificando-as em verdadeiras (V) ou falsas (F). Ao final, assinale a opção que contenha a sequência correta.

() Os dois últimos parágrafos estampam o funcionamento da Administração Pública durante a primeira República.
() A carta mencionada no texto é a demonstração de força do apadrinhador,que, com sua influência, mobiliza os órgãos estatais a seu favor.
() Sob certo aspecto, a meritocracia está presente no conto estudado, assim como estava na primeira República, pois o professor de javanês somente alcançou o posto estatal por força dos conhecimentos da língua estrangeira que todos achavam que ele possuía.

Alternativas
Comentários
  • Questão muito boa, mesclando administração pública com interpretação de textos !


  • gab. C , para quem não é sócio.

  • Administração Pública Patrimonialista = Predominou no Brasil até 1930. O aparelho do Estado funciona como uma

    extensão do poder do soberano, e os seus auxiliares, servidores, possuem status de nobreza real. Os cargos são considerados prebendas ou sinecuras. A respublica não é diferenciada das res principis (confusão entre o patrimônio público e o privado). A corrupção e o nepotismo são inerentes a esse tipo de administração. ( justifica as duas primeiras colocações).

    São características da burocracia segundo Max Weber:  caráter legal das normas e regulamentos;  caráter formal das comunicações; caráter racional das comunicações; impessoalidade nas relações; hierarquia de autoridade; rotinas e procedimentos padronizados;  competência técnica e meritocracia; especialização da administração;  profissionalização dos participantes; e completa previsibilidade do funcionamento.

    obs: o conto relata aspectos da adm. pública patrimonialista, neste sentido, a última afirmação está errada.

    Que Deus nos abençoem!


  • A questão é clara quando pede que se analise pelo texto. Quesito "d".

  • Lima barreto! =)

     

  • A  República Velha!

  • Na terceira afirmativa ele diz, "Sob certo aspecto" isso dá uma abertura muito grande à interpretações.

    A meu ver há sim um certo mérito para ele ter conseguido o emprego, pois na visão do contratante ele era o único que saia javanês, caso ele "não soubesse" mesmo com a indicação talvez não conseguiria a vaga.

      

  • quem está precisando de uma aula de interpretação é o sujeito que elaborou essa questão.....generalizou funcionamento da administração pública com secretária de estrangeiro( um orgão especifico,neste caso) afff

  • Na primeira república não havia meritocracia, mas sim,o apadrinhamento, porém a banca cometeu um equívoco, pois no patrimonialismo havia ,em exceção, a meritocracia, conforme o desenrolar do texto percebe-se está exceção, pois ele foi convidado (patrimonialismo), porque sabia javanês (meritocracia).