SóProvas


ID
1839673
Banca
FCC
Órgão
TRT - 23ª REGIÃO (MT)
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

     Nasci na Rua Faro, a poucos metros do Bar Joia, e, muito antes de ir morar no Leblon, o Jardim Botânico foi meu quintal. Era ali, por suas aleias de areia cor de creme, que eu caminhava todas as manhãs de mãos dadas com minha avó. Entrávamos pelo portão principal e seguíamos primeiro pela aleia imponente que vai dar no chafariz. Depois, íamos passear à beira do lago, ver as vitórias-régias, subir as escadarias de pedra, observar o relógio de sol. Mas íamos, sobretudo, catar mulungu.  

      Mulungu é uma semente vermelha com a pontinha preta, bem pequena, menor do que um grão de ervilha. Tem a casca lisa, encerada, e em contraste com a pontinha preta seu vermelho é um vermelho vivo, tão vivo que parece quase estranho à natureza. É bonita. Era um verdadeiro prêmio conseguir encontrar um mulungu em meio à vegetação, descobrir de repente a casca vermelha e viva cintilando por entre as lâminas de grama ou no seio úmido de uma bromélia. Lembro bem com que alegria eu me abaixava e estendia a mão para tocar o pequeno grão, que por causa da ponta preta tinha uma aparência que a mim lembrava vagamente um olho.

      Disse isso à minha avó e ela riu, comentando que eu era como meu pai, sempre prestava atenção nos detalhes das coisas. Acho que já nessa época eu olhava em torno com olhos mínimos. Mas a grandeza das manhãs se media pela quantidade de mulungus que me restava na palma da mão na hora de ir para casa. Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes apenas dois ou três. E é curioso que nunca tenha sabido ao certo de onde eles vinham, de que árvore ou arbusto caíam aquelas sementes vermelhas. Apenas sabíamos que surgiam no chão ou por entre as folhas e sempre numa determinada região do Jardim Botânico.

      Mas eu jamais seria capaz de reconhecer uma árvore de mulungu. Um dia, procurei no dicionário e descobri que mulungu é o mesmo que corticeira e que também é conhecido pelo nome de flor-de-coral. ''Árvore regular, ornamental, da família das leguminosas, originária da Amazônia e de Mato Grosso, de flores vermelhas, dispostas em racimos multifloros, sendo as sementes do fruto do tamanho de um feijão (mentira!), e vermelhas com mácula preta (isto, sim)'', dizia.

      Mas há ainda um outro detalhe estranho – é que não me lembro de jamais ter visto uma dessas sementes lá em casa. De algum modo, depois de catadas elas desapareciam e hoje me pergunto se não era minha avó que as guardava e tornava a despejá-las nas folhagens todas as manhãs, sempre que não estávamos olhando, só para que tivéssemos o prazer de encontrá-las. O fato é que não me sobrou nenhuma e elas ganharam, talvez por isso, uma aura de magia, uma natureza impalpável. Dos mulungus, só me ficou a memória − essa memória mínima.

(Adaptado de: SEIXAS, Heloísa. Semente da Memória. Disponível em: http://heloisaseixas.com.br) 

De acordo com o texto,

Alternativas
Comentários
  • A justificativa para a alternativa E ser a correta se encontra nas duas últimas frases do último parágrafo: 

     

    "O fato é que não me sobrou nenhuma e elas ganharam, talvez por isso, uma aura de magia, uma natureza impalpável. Dos mulungus, só me ficou a memória − essa memória mínima."

     

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    "O impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe." Muhammad Ali

  • a) ERRADA. Estranho ao mencionar "cuja lembrança já desgastada pauta-se por um critério muito mais afetivo do que visual, pois em várias partes do texto a autora descreve o mulungu com detalhes, inclusive questionando a definição do dicionário: "tem a casca lisa, encerada, e em contraste com a pontinha preta seu vermelho é um vermelho vivo..."; "sendo as sementes do fruto do tamanho de um feijão (mentira!)...".

    b) ERRADA. Acredito que o erro esteja em mencionar "e a memória guardada do pai". Na verdade, que tem essa lembrança é a avó e não a autora.
    C) ERRADA. Não é possível inferir do texto "preocupação da avó", além do que o principal objetivo das visitas diárias ao Jardim Botânico era: "Mas íamos, sobretudo, catar mulungu".
    D) ERRADA. Não é possível afirmar que a avó se desfazia das sementes, já que a autora menciona "e hoje me pergunto se não era minha avó que as guardava e tornava a despejá-las...". Trata-se de uma dúvida da autora.
    E) Conforme HeiDePassar.
  • a)

    o modo como a autora apresenta a definição da planta mulungu, a partir do dicionário, permite-lhe inferir como seriam as sementes, cuja lembrança já desgastada pauta-se por um critério muito mais afetivo do que visual.

     b)

    as sementes de mulungu terminam por ser um pretexto para que a autora retrate, com a narração de um causo, sua relação com a avó e a memória guardada do pai, que não participava das caminhadas pelo Jardim Botânico.

     c)

    apesar da preocupação da avó, para quem as bromélias e a grama − note-se o termo lâminas a ela associado − punham a criança em risco, o convívio com a natureza era o principal motivo das visitas diárias ao Jardim Botânico.

     d)

    o mulungu era colhido pela autora quando criança, em seus passeios pelo Jardim Botânico, mas era pouco valorizado por sua avó, que secretamente se desfazia das sementes ornamentais que a neta encontrava.

     e)

    hoje a escritora guarda uma memória pequena como as sementes do mulungu, mas tão expressiva quanto aquelas manhãs em que sua avó a levava para passear no Jardim Botânico.

  • Inferir:

    Fazer inferência sobre; concluir, deduzir.

  • Inferir: conclusão baseada nas entre linhas

    Depreender: conclusão baseada em algo explícito.

  • Desculpem o desabafo, mas que questão  mais subjetiva! A interpretação de "mínima" como "pequena" é casuística. Faz muito mais sentido considerar essa expressão como "particular". Não gosto desse tipo de questão, não afere conhecimento, na minha opinião.

  • Letra: b) as sementes de mulungu terminam por ser um pretexto para que a autora retrate, com a narração de um causo, sua relação com a avó e a memória guardada do pai, que não participava das caminhadas pelo Jardim Botânico. 

     

    Na minha opinião está errada porque foram os passeios com a avó que serviram de pretexto para que a autora descrevesse, na maior parte do texto, as características dos mulungus e não o contrário. O texto todo se refere a essa sementinha e ao fascínio que autora tem por ela. 

     

     

  • De onde pode-se inferir que a memória da autora é "tão expressiva quanto aquelas manhãs em que sua avó a levava para passear no Jardim Botânico"?

  • Fiquei entre a A e a E

    Eliminei a A por causa da palavra "desgastada". A lembrança pode ser considerada mínima, mas jamais desgastada.

    A) o modo como a autora apresenta a definição da planta mulungu, a partir do dicionário, permite-lhe inferir como seriam as sementes, cuja lembrança já desgastada  pauta-se por um critério muito mais afetivo do que visual.

     

    As dicas no comentário da professora podem ajudar.

    Uma delas: procurar no texto expressões que constam do item e checar o sentido da informação.

    Abraço!

    Bons Estudos!