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ID
2014006
Banca
COSEAC
Órgão
Prefeitura de Niterói - RJ
Ano
2016
Provas
Disciplina
Literatura
Assuntos

Texto 1

1     No Brasil de hoje, talvez no mundo, parece haver um duplo fenômeno de proliferação dos poetas e de diminuição da circulação da poesia (por exemplo, no debate público e no mercado). Uma das possíveis explicações para isso é a resistência que a poesia tem de se tornar um produto mercantil, ou seja, de se tornar objeto da cultura de massas. Ao mesmo tempo, numa sociedade de consumo e laica, parece não haver mais uma função social para o poeta, substituído por outros personagens. A poesia, compreendida como a arte de criar poemas, se tornou anacrônica?

2     Parece-me que a poesia escrita sempre será – pelo menos em tempo previsível – coisa para poucas pessoas. É que ela exige muito do seu leitor. Para ser plenamente apreciado, cada poema deve ser lido lentamente, em voz baixa ou alta, ou ainda “aural”, como diz o poeta Jacques Roubaud. Alguns de seus trechos, ou ele inteiro, devem ser relidos, às vezes mais de uma vez. Há muitas coisas a serem descobertas num poema, e tudo nele é sugestivo: os sentidos, as alusões, a sonoridade, o ritmo, as relações paronomásicas, as aliterações, as rimas, os assíndetos, as associações icônicas etc. Todos os componentes de um poema escrito podem (e devem) ser levados em conta. Muitos deles são inter-relacionados. Tudo isso deve ser comparado a outros poemas que o leitor conheça. E, de preferência, o leitor deve ser familiarizado com os poemas canônicos. (...) O leitor deve convocar e deixar que interajam uns com os outros, até onde não puder mais, todos os recursos de que dispõe: razão, intelecto, experiência, cultura, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor, etc.

3     Sem isso tudo, a leitura do poema não compensa: é uma chatice. Um quadro pode ser olhado en passant; um romance, lido à maneira dinâmica; uma música, ouvida distraidamente; um filme, uma peça de teatro, um ballet, idem. Um poema, não. Nada mais entediante do que a leitura desatenta de um poema. Quanto melhor ele for, mais faculdades nossas, e em mais alto grau, são por ele solicitadas e atualizadas. É por isso que muita gente tem preguiça de ler um poema, e muita gente jamais o faz. Os que o fazem, porém, sabem que é precisamente a exigência do poema – a interação e a atualização das nossas faculdades – que constitui a recompensa (incomparável) que ele oferece ao seu leitor. Mas os bons poemas são raridades. A função do poeta é fazer essas raridades. Felizmente, elas são anacrônicas, porque nos fazem experimentar uma temporalidade inteiramente diferente da temporalidade utilitária em que passamos a maior parte das nossas vidas.

(CÍCERO, Antônio. In: antoniocicero. Hogspot.com.br/ 2008_09_01archive.html (adaptado de uma entrevista).

A proposição em que se nota a inexistência de indicador modal – isto é, de marca linguística destinada a sinalizar a modalidade sob a qual o conteúdo proposicional deve ser interpretado – é:

Alternativas
Comentários
  • Os indicadores modais, “também chamados modalizadores em sentido estrito, são igualmente importantes na construção do sentido do discurso e na sinalização do modo como aquilo que se diz é dito.” (Koch, 2003, p. 50)

     

    A modalização da linguagem permite-nos perceber aquilo que é dito sem que o locutor tenha sempre plena consciência de seu dizer. Enfim, é a marca lingüístico-semântica do locutor no enunciado. Koch (2003) mostra que a modalidade se constrói (se lexicaliza) por meios lingüísticos tais como:

     

    a) expressões cristalizadas do tipo “é + adjetivo” (é necessário; é possível; é certo; é obrigatório; é óbvio etc.);

    b) advérbios ou locuções adverbiais (talvez, provavelmente, possivelmente, certamente etc.);

    c) verbos auxiliares modais (poder, dever, querer etc.);

    d) auxiliar modal + infinitivo (ter de + infinitivo; precisar/necessitar + infinitivo; dever+ infinitivo etc.);

    e) orações modalizadoras (tenho a certeza de que; não há dúvida de que; há possibilidade de; todos sabem que etc.).

     

    Além desses indicadores, a modalidade também se expressa por meio dos indicadores atitudinais, que expõem, de certo modo, a emoção do locutor no ato da fala. São eles:

     

    a) advérbios e expressões de valor adverbial caracterizando enunciados (felizmente; infelizmente; é com prazer; pesarosamente; francamente; orgulhosamente etc.);

    b) adjetivos ou expressões adjetivas que demonstram a atitude subjetiva do locutor numa avaliação de fatos (excelente; extremamente);

    c) advérbios ou expressões modalizadoras que delimitam o domínio discursivo ou o modo como o assunto é apresentado pelo locutor (politicamente; geograficamente; historicamente; sociologicamente; resumidamente; concisamente etc.)

     

    ( http://www.filologia.org.br/xicnlf/8/a_noticia_interpretada_os_indicadores.pdf )

     

     a) “Uma das possíveis explicações para isso é a resistência que a poesia tem de se tornar  (?) um produto mercantil” (§ 1).

     

     b) “Ao mesmo tempo, numa sociedade de consumo e laica, parece não haver mais uma função social para o poeta” (§ 1).

     

     c) “Alguns de seus trechos, ou ele inteiro, devem ser relidos, às vezes mais de uma vez” (§ 2).

     

     d) “Sem isso tudo, a leitura do poema não compensa: é uma chatice” (§ 3). [Correta. Não teria indicador modal.]

     

     e) “Um quadro pode ser olhado en passant; um romance, lido à maneira dinâmica” (§ 3). 

  • modalização é um fenômeno discursivo em que um sujeito falante se coloca como fonte de referências pessoais, temporais, espaciais, e, ao mesmo tempo, toma uma atitude em relação ao que diz ou ao seu co-enunciador. Ela pode ser evidenciada nas manifestações escritas e orais da linguagem, nos mais variados contextos.

    Exemplos de modalização:

    * Vai chover amanhã.
    - Acho que vai chover amanhã.


    * Ele tem 50 anos de profissão.
    - Ele tem uns 50 anos de profissão.


    * A experiência vai dar certo.
    - A experiência tem de dar certo

     

    Fonte: http://www.dicionarioinformal.com.br/modaliza%C3%A7%C3%A3o/

  • Se você souber que os indicadores modais, no caso dessa questão, são os verbos auxiliares+ infinitivos que indicam circunstâncias (modos) fica fácil demais a questão. Agora, sem esse entendimento, até o enunciado fica complicado de entender.

    Eu acertei a questão e você também consegue: seja forte e avante!

     

    Abraços.

  • “Um quadro pode ser olhado en passant; um
    romance, lido à maneira dinâmica” (§ 3). No gabarito oficial marca a letra e