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ID
2096464
Banca
PM-MG
Órgão
PM-MG
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

O Roubo do Relógio

Rolando Boldrin

Naquele arraial do Pau Fincado, havia um sujeitinho danado pra roubar coisas. Às vezes galinha, às vezes cavalo, às vezes coisas miúdas. A verdade é que o dito cujo era chegado em surrupiar bens alheios.

Todo mundo daquele arraial já estava até acostumado com os tais furtos. E a coisa chegou a tal ponto de constância que bastava alguém da por falta de qualquer objeto e lá vinha o comentário: “Ah, foi o Justino Larápio”.

E foi numa dessas que sumiu o relógio do cumpadi João, um cidadão por demais conhecido por aquelas bandas do Pau Fincado. Foi a conta de sumir o relógio dele para o dito cujo correr pra delegacia mais próxima e dar parte do fato.

O delegado pediu que o sêo João arranjasse três testemunhas para lavrar o ocorrido e então prender o tal ladrãozinho popular. Arranjar três testemunhas de que o tal Justino havia surrupiado qualquer coisa era fácil, dado a popularidade do dito cujo pra esses afazeres fora da lei.

A cena que conto agora transcorreu assim, sem tirar nem pôr. Intimado o Justino, eis ali, ladrão, vítima e três testemunhas:

DELEGADO (para a primeira testemunha) – O senhor viu o Justino roubar o relógio do sêo João, aqui presente?

TESTEMUNHA 1 – Dotô.Vê, ansim com os óio, eu num posso dizê que vi. Mas sei que ele é ladrão mêmo. O que ele vê na frente dele, ele passa a mão na hora. Pode prendê ele dotô!

DELEGADO (para a segunda testemunha) – E o senhor? Viu o Justino roubar o relógio do sêo João?

TESTEMUNHA 2 – Óia, dotô ...num vô falá que vi ele fazê isso, mas todo mundo no arraiá sabe que ele róba mêmo, uai. Pode prender sem susto. Eu garanto que foi ele que robô esse relógio.

DELEGADO (para a última testemunha) – E o senhor? Pode me dizer se viu o Justino roubar o relógio do sêo João?

TESTEMUNHA 3 – Dotô, ponho a mão no fogo si num foi ele. Prende logo esse sem vergonha, ladrão duma figa. Foi ele mêmo!

DELEGADO – Mas o senhor não viu ele roubar? O senhor sabe que foi ele, mas não viu o fato em si?

TESTEMUNHA 3 – Num carece de vê, dotô! Todo mundo sabe que ele róba. Pode preguntá pra cidade intêra. Foi ele. Prende logo esse peste!

DELEGADO (olhando firme para o Justino) – Olha aqui, Justino. Eu também tenho certeza de que foi você que roubou o relógio do sêo João. Mas, como não temos provas cabíveis, palpáveis e congruentes.... você está, por mim, absolvido.

JUSTINO (espantado, arregalando os olhos para o delegado) – O que, dotô ? O que que o sinhô me diz? Eu tô absorvido????

DELEGADO – Está absolvido.

JUSTINO – Qué dizê intão que eu tenho que devorvê o relógio?

Disponível em: http://www.rolandoboldrin.com.br/causos. Acessado em 19 ago. de 2016. 

Marque a alternativa CORRETA. Quanto à diversidade linguística no texto apresentado, podemos afirmar que o autor optou por:

Alternativas
Comentários
  • As diferentes variações linguísticas

    Variações diafásicas

    São as variações que se dão em função do contexto comunicativo, isto é, a ocasião determina o modo como falaremos com o nosso interlocutor, podendo ser formal ou informal.

    Variações históricas

    Como já foi dito, a língua é dinâmica e sofre transformações ao longo do tempo. Um exemplo de variação histórica é a questão da ortografia: a palavra “farmácia” já foi escrita com “ph” (pharmácia). A palavra “você”, que tem origem etimológica na expressão de tratamento de deferência “vossa mercê” e que se transformou sucessivamente em “vossemecê”, “vosmecê”, “vancê”, até chegar na que utilizamos hoje que é, muitas vezes (principalmente na Internet), abreviado para “vc”.

    Variações diatópicas

    Representam as variações que ocorrem pelas diferenças regionais. As variações regionais, denominados dialetos, são as variações referentes a diferentes regiões geográficas, de acordo com a cultura local. Um exemplo deste tipo de variação é a palavra “mandioca” que, em certos lugares, recebe outras denominações, como “macaxeira” e “aipim”. Nesta modalidade também estão os sotaques, ligados às marcas orais da linguagem.

    Variações diastráticas

    São as variações ocorridas em razão da convivência entre os grupos sociais. As gírias, os jargões e o linguajar caipira são exemplos desta modalidade de variação linguística. É uma variação social e pertence a um grupo específico de pessoas. As gírias pertencem ao vocabulário específico de certos grupos, como os policiais, cantores de rap, surfistas, estudantes, jornalistas, entre outros.
    Fonte:http://www.estudopratico.com.br/variacoes-linguisticas-diafasica-diatopica-diastratica-e-historica/

  • O gabarito apontou como correta a alternativa “A”, ou seja, a variação diastrática. Contudo, a questão merece ser revista conforme será demonstrado.

     

    A questão delimitou a análise das alternativas ao texto apresentado, qual seja, “O roubo do relógio”, de autoria de Ronaldo Boldrin. O texto narra o furto de relógio ocorrido no LUGAR denominado “Arraial do Pau Fincado”. Várias passagens do texto demonstram que os moradores daquela localidade utilizavam de um linguajar específico, próprio daquele lugarejo, dentre os quais pode se destacar:

     

    Dotô.Vê, ansim com os óio, eu num posso dizê que vi. Mas sei que ele é ladrão mêmo. O que ele vê na frente dele, ele passa a mão na hora. Pode prendê ele dotô!

  • Assim, verifica-se que as personagens do texto utilizam para a comunicação a linguagem própria da localidade de arraial do Pau Fincado, o que vai ao encontro do conceito de variação diatópica da linguagem.

     

    A linguagem diatópica se relaciona à diversidade de linguagem apresentada nos diversos lugares, mais precisamente, “Essa diversidade no espaço se diz diatópica (do grego diá ‘através de’, tópos ‘lugar’)” BECHARA (2009, p.31) G.N.

     

    A variação diatópica é a responsável pelo regionalismo ou falares locais, é, portanto, o caso em análise, pois se trata de um modo de falar específico da localidade de Pau Fincado, localidade sobre a qual deveria ser analisada a questão.

     

    Com efeito, como houve limitação territorial (Arraial do Pau Fincado) a alternativa correta para a questão é a que indique o regionalismo, ou seja, a linguagem diatópica, pois reflete um modo específico de se comunicar dos integrantes da comunidade do “Arraial do Pau Fincado”.

     

    Por outro lado, a alternativa eleita como correta foi a da linguagem diastrática, contudo, apesar de guardar certo grau de proximidade, a linguagem apresentada no texto indica, sem sobra de dúvidas tratar-se de um linguajar específico de um “topos”, melhor dizendo, do “Arraial do Pau Fincado”.

     

    As obras de linguística são uníssonas em afirmar que, não é possível traçar uma diferença paradigmática entre as variações de linguagem [diatópica (regional), diafásica (social) e diastrática (de registro)], justamente em virtude da dinamicidade da língua e pelo fato de os conceitos se intercalarem, vez ou outra, um sobrepondo-se ao outro.

     

    Com efeito, assim se manifesta os estudiosos da linguística:

     

    Estamos apresentando cada variável como se a mesma operasse de forma autônoma, sem interferência das demais variáveis associadas ao comportamento da variação. Entretanto, o que ocorre normalmente nas línguas é uma interação mais ou menos estreita entre as diferentes variáveis. Assim, uma inovação lingüística começa numa determinada região (variável regional), mas é própria de um grupo socioeconômico desfavorecido (variável social). A variante pode passar a ser usada pelo grupo socioeconômico mais alto nos momentos mais informais (a variável é, então, o registro). (Martelotta, 2011, p.145) G.N.

     

    Portanto, a questão deve ser analisada sobre a preponderância de uma variação a outra. E sendo assim, repita-se, como o examinador delimitou o “topos” (lugar), este deve prevalecer sobre qualquer outra forma de variação linguística. Ao contrário, se a questão não delimitasse o local onde se passou a história, aí sim abrir-se-ia espaço para a análise das outras variações linguísticas.

  • Resumindo o que a professora flw no video:

    Linguagem diastratica está relacionada a classe social, a condição financeira dos locutores.( delegado tem uma linguagem mais tecnica que o povao)

    Linguagem historica está ligada a contextos muito antigo ou muito comtemporaneo

    linguagem diafasica é a lingagem com variações escritas e oral( fiquei com duvida pq nas pesquisas a relação é entre linguagem forma e informal)

    Linguagem diatopica está ligada as variações regionais, regioes geografica.

  • diastratica  = classe social + condição financeira 

    Linguagem historica =  contextos antigo/comtemporaneo

     diafasica =  variante na  linguagem escrita e oral

     diatopica = variações regionais (formal ou informal)