SóProvas


ID
2099797
Banca
IBFC
Órgão
Prefeitura de Jandira - SP
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Texto I
Encontro
Com atenção não seria difícil descobrir pequenas mudanças: os cabelos mais claros, e entretanto com menos luz e vida; a boca pintada com um desenho diferente, e o batom mais escuro. Impossível negar uma tênue, fina ruga – quase estimável. Mas naquele instante, diante da amiga amada que não via há muito tempo, não eram essas pequenas coisas que intrigavam o seu olhar afetuoso e melancólico. Havia certa mudança imponderável, e difícil de localizar – a voz ou o jeito de falar, o tom ao mesmo tempo mais desembaraçado e mais sereno?
E mesmo no talhe do corpo (o pequeno cinto vermelho era, pensou ele, uma inabilidade: aumentava-lhe a cintura), na relação entre o corpo e os membros, havia uma sutil mudança.
Sim, ela estava mais elegante, mais precisa em seu desenho, mas perdera alguma indizível graça elástica do tempo em que não precisava fazer regime para emagrecer e era menos consciente de seu próprio corpo, como que o abandonava com certa moleza, distraída das próprias linhas e dos gestos cuja beleza imprevista ele fora descobrindo devagar, com uma longa delícia.
Por um instante, enquanto conversava com outras pessoas presentes assuntos sem importância, ele tentou imaginar que impressão teria agora se a visse pela primeira vez, se aquela imagem não estivesse, dentro de seus olhos e de sua alma, fundida a tantas outras imagens dela mesma perdidas no espaço e no tempo. Não tinha dúvida de que a acharia muito bonita, pois ela continuava bela, talvez mais bem vestida; não tinha dúvida mesmo de que, como da primeira vez que a vira, receberia sua beleza como um choque, uma bênção e um leve pânico, tanto a sua radiosa formosura dá uma vida e um sentido novo a qualquer ambiente, traz essa vibração especial que só certas mulheres realmente belas produzem. Mas de algum modo esse deslumbramento seria diferente do antigo – como se ela estivesse mais pessoa, com mais graça e finura de mulher, menos graça e abandono de animal jovem.
O grupo moveu-se para tomar lugar em uma mesa no fundo do bar. Ele andou a seu lado um instante (como tinham andado lado a lado!) mas não quis sentar, recusou o convite gentil, sentia-se quase um estranho naquela roda. Despediuse. E quando estendeu a mão àquela que tanto amara, e recebeu, como antigamente, seu olhar claro e amigo, quase carinhoso, sentiu uma coisa boa dentro de si, uma certeza de que nem tudo se perde na confusão da vida e que uma vaga mas imperecível ternura é o prêmio dos que muito souberam amar.
(BRAGA, Rubem. O verão e as mulheres. Rio de Janeiro, ed. Record, 10ª ed., 2008)

No segundo parágrafo, ao caracterizar o uso do pequeno cinto vermelho como “uma inabilidade”, o autor revela um pensamento que:

Alternativas
Comentários
  • Gabarito D

     

    Inabilidade: Qualidade de inábil; falta de habilidade.

    http://www.dicionarioweb.com.br/inabilidade/

  • Sabe, eu fiquei entre a B e a D...em um primeiro momento eu quis ir de B, mas a B, apesar de ser "viável", seria uma extrapolação... Não tem como eu saber, pelo texto, que a visão dele é diferente da do personagem... Ai eu me peguei imaginando: pô, mas ela escolheu o cinto, deve ser porque lhe caía bem e tal e o autor que está dizendo que aumentava a cintura dela, logo, a visão dele é diferente da do personagem... Veja só, que extrapolação maluca, nada no texto me garante isso! kkkkk Por isso é importante tomarmos cuidado... às vezes, durante a prova, estamos ansiosos e acabamos achando válido "extrapolar".

  • Achei meio forçado ser uma "crítica". Está mais para uma impressão (Enfim... talvez seja crítica pelo fato do personagem dizer ser uma "inabilidade"). A IBFC não é muito feliz na elaboração de questões de interpretação de texto.

  • Concordo com a assertiva quando diz ser uma crítica, uma vez que ele afirma no texto que o cinto "aumentava-lhe a cintura"... Logo, a mulher não foi hábil em usar um cinto em que valorizasse a sua cintura. Foi inábil em utilizar um cinto que dava a impressão de aumentar sua cintura. 

    Com isso, ele fez uma crítica.

  • criticar não está no sentido de analisar ou de criar de um juízo de valor / opinião pessoal ?