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ID
2829541
Banca
IDECAN
Órgão
CRF-SP
Ano
2018
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

E se o Império Romano não tivesse acabado?

    Em vez da França, a província de Gália. Em vez da Inglaterra, a Bretanha. Em vez da Bulgária, a Trácia. Quem já leu as aventuras de Asterix conhece bem esses nomes esquisitos de regiões dominadas pelos exércitos de Roma (as histórias do herói gaulês se passam por volta de 50 a.C., época do apogeu do Império Romano). Pois assim seria o Velho Mundo se o império com sede em Roma não tivesse se desintegrado: uma única nação contornando o Mediterrâneo ao longo das costas europeia, asiática e africana. Mas a mudança dos nomes das localidades europeias é a menos importante das diferenças. O mundo seria outro. O capitalismo talvez ainda não tivesse surgido e, sem ele, a conquista e a colonização da América não aconteceriam. No final das contas, o Brasil poderia ser até hoje uma terra de índios.
    Mas vamos aos poucos. Primeiro é bom lembrar o que houve com o império de Roma. O poder imperial começou a se esfarelar no século 3, quando ocorreram lutas internas entre generais e vivia-se uma verdadeira anarquia militar. Para se ter uma ideia, em 50 anos houve pelo menos 20 imperadores, que foram destituídos um após o outro (alguns inclusive reinaram simultaneamente, em conflito). 
    Não era para menos. A economia romana era baseada no trabalho escravo e o suprimento de escravos dependia da conquista de novos territórios. O problema foi que o reino tornou-se grande demais para ser administrado, as conquistas minguaram, os escravos escassearam e a vida boa acabou. A arrecadação de impostos diminuiu e a população pobre começou a reclamar. Para ajudar, ainda havia o cristianismo (que era contra a escravidão e a riqueza da elite) e uma peste que varreu a região. Nessa barafunda de problemas, tentou-se de tudo, até a divisão administrativa do império em dois, o do Ocidente (com sede em Roma) e o do Oriente (o Império Bizantino), com sede em Constantinopla (onde antes ficava Bizâncio).
    Para este último, a solução foi eficaz. Mas o Império Romano do Ocidente, assolado pela crise econômica, perdeu seu poder militar e foi aos poucos invadido por guerreiros germânicos. Em 395, a divisão administrativa transformou-se em divisão política e o império rachou em dois. Deixada à própria sorte, a metade ocidental durou pouco. A queda definitiva ocorreu em 476, quando a tribo do rei Odoacro derrubou o último chefe de Roma, Rômulo Augústulo. No Oriente, no entanto, o Império Romano continuou existindo por quase mil anos, até 1453, quando os turcos tomaram Constantinopla.
    Se o Império Romano resistisse, possivelmente ele seria parecido com sua metade oriental, diz Pedro Paulo Funari, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em primeiro lugar, o imperador seria também o papa, como em Constantinopla, onde o imperador governava tudo o que interessava: o Exército e a Igreja. Ou isso ou haveria uma divisão de poderes com a Igreja. Essa mistureba de papéis provavelmente criaria situações curiosas, como bispos governando uma província como Portugal, ou melhor, a Lusitânia, e párocos dirigindo cidades.
    A influência religiosa seria ainda maior do que foi na Idade Média ou atualmente. Nas províncias, o divórcio e o aborto provavelmente seriam proibidos e não seria nenhum absurdo que alguns costumes alimentares cristãos, como comer peixe às sextas-feiras, tivessem a força de lei, com penas severas (o açoite, o exílio e a prisão domiciliar eram comuns) para quem degustasse uma costelinha no dia sagrado.
    As línguas derivadas do latim, como o português, o espanhol, o francês e o italiano, provavelmente seriam muito diferentes. O português, por exemplo, não teria sofrido a influência das línguas árabe e germânica, já que, nesse nosso mundo hipotético, possivelmente não ocorreriam as invasões dos germânicos e muçulmanos na península Ibérica. Palavras de origem árabe e tão portuguesas, como azeite, não fariam parte do nosso vocabulário.
    E o capitalismo? “Provavelmente demoraria mais para acontecer”, afirma Funari. “Impérios em geral dificultam o desenvolvimento do capitalismo, que depende do individualismo para se desenvolver. Um Estado muito forte e controlador é um obstáculo”, diz o historiador. Na Europa, o feudalismo e a fragmentação do poder favoreceram o surgimento do capitalismo. No Japão, onde houve a fragmentação do Estado e a implantação de um sistema de shogunato, isso também aconteceu, ao contrário da China, um império que durou até 1911. Retardado o capitalismo, a colonização da América também seria outra. E os astecas, incas, tupinambás e guaranis talvez tivessem se desenvolvido mais e oferecido maior resistência aos europeus. Indo mais longe, um império inca talvez pudesse existir até hoje. Mas essa é uma outra hipótese.

(Lia Hama e Adriano Sambugaro – http://super.abril.com.br/cultura/se-imperio-romano-nao-tivesse-acabado-444330.shtml?utm_source= redesabril_super&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_jovem.)

Analise as afirmações apresentadas a seguir, tendo em vista as estratégias dos autores do texto para explanar o mundo hipotético apresentado no texto.

I. Embora boa parte do texto se ampare em suposições, os prognósticos levantados se amparam em evidências.

II. Em boa medida, as explicações têm base em comparações e analogias entre os cenários conjecturados e fatos de natureza histórica.

III. Apesar de se tratar de um cenário imaginativo, os raciocínios elaborados são todos unidirecionais.

Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s)

Alternativas
Comentários
  • I. Embora boa parte do texto se ampare em suposições, os prognósticos levantados se amparam em evidências.

    II. Em boa medida, as explicações têm base em comparações e analogias entre os cenários conjecturados e fatos de natureza histórica


    Letra C

  • I. Embora boa parte do texto se ampare em suposições, os prognósticos levantados se amparam em evidências.

    CERTO. Realmente, boa parte do texto se ampara em suposições. Aliás, esse é o objetivo do texto, conforme seu título "E se o Império Romano não tivesse acabado?"

    Os prognósticos (suposições, teorias) se amparam nos fatos históricos (evidências) apresentados no decorrer do texto.


    II. Em boa medida, as explicações têm base em comparações e analogias entre os cenários conjecturados e fatos de natureza histórica.

    CERTO. Vai no mesmo sentido da afirmação I. O autor apresenta o fato histórico (consumado) e vai fazendo suas suposições, comparando como as coisas aconteceram e como poderiam ter acontecido se o Império Romano não tivesse acabado.


    III. Apesar de se tratar de um cenário imaginativo, os raciocínios elaborados são todos unidirecionais.

    ERRADO. É pluridirecional. Veja que o autor faz conjecturas sobre aspectos diversos, como religião, linguagem, povos indígenas e economia (capitalismo).


    Espero ter ajudado.

    Bons estudos!


  •  "(...) os prognósticos levantados se amparam em evidências"

    Que evidências seriam essas? Questão meio confusa.

  • Também não entendi que evidências são essas que amparam os prognósticos.

  • Sobre a afirmativa I, que os colegas ficaram em dúvida sobre o termo "evidências", coloco o trecho abaixo:


    E o capitalismo? “Provavelmente demoraria mais para acontecer”, afirma Funari. “Impérios em geral dificultam o desenvolvimento do capitalismo, que depende do individualismo para se desenvolver. Um Estado muito forte e controlador é um obstáculo”, diz o historiador.


    A parte destacada é uma evidência que o historiador se utiliza para respaldar o prognóstico de um capitalismo que demoraria para acontecer na hipótese de um Império Romano mais duradouro.


    Bons estudos!

  • Mano pra que um texto desse tamanho.. slc

  • Esse tipo de texto é muito bom para ler.

  • Gente leia primeiro a questão, no caso eu respondi sem ler o texto apenas com os enunciados apresentados, por se tratar de um texto argumentativo por óbvio a ideia apresentada se resume em verdadeira não sendo não entendo imaginação e nem estando em um cenário imaginativo já que a história ocorreu... Não é um texto literário... Sem ler o texto apenas apreciando as alternativas conseguimos auferir que a opção III ESTÁ EQUIVOCADO E SOMENTE AS OUTRAS DIZEM A MESMA COISA

  • O próprio autor fala em " Mundo hipotético" e o examinador fala que os prognósticos são aparados em evidências. Se existir 1% de dúvida, a evidência deixa de ser evidência e passa a ser indício....

  • Desnescessário um dexto desse temanho!