SóProvas


ID
3198721
Banca
IBADE
Órgão
SEJUDH - MT
Ano
2018
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

                                      O PASTEL E A CRISE   

                                                                                                       Otto Lara Resende


      Quando a crise convida ao pessimismo ou a ameaça descamba na depressão, está na hora de ler poesia ou prosa, tanto faz.

      A partir de certa altura, bom mesmo é reler. Reler sobretudo o que nunca se leu, como repeti outro dia a um amigo que não é chegado à leitura. Ele mergulhou no Proust sem escafandro e se sente mal quando vem à tona e respira o ar poluído aqui de fora.

      Verdadeiro sábio era o Rubem Braga. Tinha com a vida uma relação direta, sem intermediação intelectual. Houvesse o que houvesse, trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, mas era também fruto do aprendizado que só a experiência dá. No pequeno mundo do cotidiano, sabia como ninguém identificar as boas coisas da vida. E assim viveu até o último instante.

      Certa vez, no auge de uma crise, crivada de discursos e de diagnósticos, o Rubem estava de olho nas frutas da estação. Madrugador, cedinho já sabia das coisas. Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés-do-chão.

      Num dia de greve geral, inquietações no ar, tudo fechado, o Rubem me telefonou: “Vamos ao bar Luís, na rua da Carioca? Vamos ver a crise de perto”. E lá fomos. O bar estava aberto e o chope, esplêndido. Começamos por um preto duplo, que a sede era forte. Depois mais um, agora louro. Claro que não faltou o salsichão com bastante mostarda. Calados, mas vorazes, cumpríamos um rito. Alguém por perto disse que a Vila Militar tinha descido com os tanques.

      Saímos dali e fomos a um sebo. O Rubem comprou “Xanã”, do Carlos Lacerda, com dedicatória. Depois pegamos o carro e voltamos pelo Aterro, onde se pode exercer o direito da livre eructação. Tinha sido um perfeito programa cultural. E sem nenhum incentivo do governo. Vi agora na televisão que o maracujá está em baixa e me lembrei do velho Braga.

      Nem tudo está perdido. Fui à feira e comprei também dois suculentos abacaxis. Caem bem nesta hora de atribulação nacional. Só falta agora descobrir um bom pastel de palmito na Zona Norte. Se o Rubem estivesse aí, lá iríamos nós atrás da deleitosa descoberta . Depois, de cabeça erguida , enfrentaríamos a crise e até o caos.

(RESENDE, O. Lara. Fonte: https://edoc.site/149572393-ascem-melhores-cronicas-brasileiras-011-gpdf-pdf-free.html)

“Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés-do-chão.”


O trecho acima, extraído do quarto parágrafo, tem alta voltagem poética, por estar construído numa sequência de:

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: LETRA B

    ? ?Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés-do-chão.?

    ? Temos uma encadeamento de uma linguagem metafórica, a metáfora é uma forma para você dar um sentido figurado a algo por meio de comparações sem o uso de conectivos, trata do emprego de uma palavra fora do seu sentido básico, recebendo nova significação, usada em uma comparação implícita entre seres de universos distintos.

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    FORÇA, GUERREIROS(AS)!! 

  • Concordo que exista uma sequência de metáforas. Mas creio que também ocorram prosopopeias no trecho.

  • A questão deveria marcar as passagens que eram para serem observadas... porque pode ter metáfora mas tbm existe prosopopéia ai...

  • Além de apresentar METÁFORA e PROSOPOPEIA (personificação), o texto também apresenta SINESTESIA no trecho: "...o sabor do Brasil..."

  • A questão deveria ser anulada porque é atribuído ao sujeito da oração: " o largo horizonte nacional", características humanas, sendo, portanto, um exemplo de prosopopeia.

  • prosopopeia =personificação = horizonte andava , não mantinha olha.
  • PERSONIFICAÇÃO

  • Vejo um monte de prosopopeias...

  • "Andava borrascoso", "não mantinha o olhar fixo", "Baixa o olhar ao rodapé"... olha quantas prosopopeias! com certeza deveria ser anulada!

  • IBADE realmente sempre decepcionando com as loucuras dela. Quem reclama da FGV claramente não conhece essa banca.