SóProvas


ID
3519379
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de São José dos Campos - SP
Ano
2019
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Leia o texto para responder a questão.

       A entrevista estava marcada na casa dele, numa das favelas mais pobres de Fortaleza. De manhã bem cedo, eu e o fotógrafo esperávamos, na porta de uma ONG ainda fechada, o educador que nos levaria até aquele emaranhado de endereços desencontrados, um território dividido por duas quadrilhas rivais do tráfico de drogas. O menino apareceu de repente, vestido com uma camiseta do Brasil. Sem olhar para mim, ele disse: “Na minha casa, não.” Não dizia o porquê. Apenas sacudia a cabeça em sinal de negativa explícita. Ele era pequeno para os seus 15 anos, mas o seu “não” era enorme.
       A porta da ONG abriu, e ele entrou. Sentou-se na cadeira da recepção e tentou ligar o computador. Passou-se muito tempo, talvez quase uma hora de silêncios entre nós, interrompidos por uma ou outra palavra que servia ao menino apenas como demarcação do território. O território que ele não queria que eu alcançasse, as palavras curtas marcando que não haveria palavras longas. Eu não sabia se tinha o direito de continuar ali, talvez nunca saiba. Mas ele também não ia embora.
    Então a cozinha da ONG abriu. E, de um salto, ele já estava lá. Como se eu fosse um vira-lata esquecido, me chamou com displicência. Mas ainda não me olhava. Sentei-me diante dele e o vi devorar um pão em menos de um minuto. No segundo pão, ele me enxergou pela primeira vez, oferecendo-me um pedaço. A certa altura, parecendo com pena de mim, disse:
   – Você entende só um pouco de português, né?
     O menino tinha razão. Eu não alcançava a riqueza da sua língua portuguesa, que dava conta de um Brasil diverso, com palavras nascidas ali mesmo. Expressões gestadas na necessidade de dar conta de uma realidade na qual era necessário, por exemplo, nomear o momento-limite em que o gatilho da arma é acionado, mas a bala não sai.
     Mas era mais do que isso. Eu demorei a lê-lo. Eu era analfabeta dele. O seu “não” da altura de um edifício, a postura do seu corpo, entre acuada e pronta para saltar no meu pescoço, o seu medo de mim, que às vezes beirava a raiva, era fome. Frequentemente me deparei com essa fome, a fome que é um substantivo sem adjetivo possível.
     O menino me leu muito antes de eu a ele. Percebeu que eu era estrangeira ao seu Brasil. Estranhou a cor da minha pele, a tonalidade do meu cabelo, a forma e o som das minhas palavras. Estranhou que eu precisasse de tradução para algumas de suas frases. Estranhou porque havia que estranhar.

(Eliane Brum. Limites da linguagem. https://brasil.elpais.com, 04.08.2014. Adaptado)

Segundo o texto, pode-se afirmar que

Alternativas
Comentários
  • Assertiva C

    a fome que o menino sentia era o que explicava o seu comportamento arredio diante da autora do texto.

       Mas era mais do que isso. Eu demorei a lê-lo. Eu era analfabeta dele. O seu “não” da altura de um edifício, a postura do seu corpo, entre acuada e pronta para saltar no meu pescoço, o seu medo de mim, que às vezes beirava a raiva, era fome. Frequentemente me deparei com essa fome, a fome que é um substantivo sem adjetivo possível.

  • ✅ Gabarito: C

    ✓ Segundo o texto, no penúltimo parágrafo: Mas era mais do que isso. Eu demorei a lê-lo. Eu era analfabeta dele. O seu “não” da altura de um edifício, a postura do seu corpo, entre acuada e pronta para saltar no meu pescoço, o seu medo de mim, que às vezes beirava a raiva, era fome. Frequentemente me deparei com essa fome, a fome que é um substantivo sem adjetivo possível.

    ☛ FORÇA, GUERREIROS(AS)!! 

  • O seu “não” da altura de um edifício, a postura do seu corpo, entre acuada e pronta para saltar no meu pescoço, o seu medo de mim, que às vezes beirava a raiva, era fome.

    Gabarito: C

  • A questão requer Compreensão e Interpretação Textual.


    Quando se fala em Compreensão Textual, as informações estão no texto. Os comandos são:

    Segundo o texto...

    O texto informa que...

    No texto...


     

    Já a Interpretação Textual, as informações estão além do texto, é uma questão de inferência, de apreender as ideias do texto. Os comandos são:

    Depreende-se / infere-se / conclui-se do texto que...

    É possível subentender a partir do texto que...

    O texto permite deduzir que...

    Qual a intenção do autor quando afirma que...


    ALTERNATIVA (A) INCORRETA – O que se pode depreender a partir das informações do texto é que não é a língua falada em Fortaleza que é considerada outra língua em relação ao restante do Brasil, mas a língua falada nas regiões mais pobres de Fortaleza por conta de uma outra realidade vivida pelas crianças de lá.


    ALTERNATIVA (B) INCORRETA – O menino dava respostas lacônicas não porque sabia que a jornalista queria escrever sobre ele, mas devido a fome que sentira, além de perceber que a jornalista não entendia nada sobre “o mundo” dele.


    ALTERNATIVA (C) CORRETA – Embora a jornalista pensasse que o menino tivesse raiva dela, ela percebeu que toda aquela apatia era, na verdade, fome. Tal afirmação pode ser confirmada no 6º parágrafo.


    ALTERNATIVA (D) INCORRETA – O que levou a autora a um dos bairros mais pobres de Fortaleza foi o interesse de acompanhar a educação, a linguagem empregada das crianças daquele bairro.


    ALTERNATIVA (E) INCORRETA – A recusa em conversar partiu do menino, não da jornalista.


    GABARITO DA PROFESSORA: ALTERNATIVA (C)

  •  "Frequentemente me deparei com essa fome, a fome que é um substantivo sem adjetivo possível." Arthur Carvalho, sou teu fã !!!1 Tô torcendo por vc e por suas vitórias. Deus continue te abençoando.

  • Belo texto!