SóProvas


ID
637636
Banca
CONSULPLAN
Órgão
Prefeitura de Congonhas - MG
Ano
2010
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

É tempo de pós-amor

   Cansei de amor! Quantos filmes, entrevistas, artigos, livros sobre amor cruzaram seu caminho ultimamente? Em uma semana, assisti a um vídeo, vi um filme, li meio livro e participei de um debate na televisão. Tudo sobre amor. E ouvi as pessoas – provavelmente também eu própria – dizerem coisas pertinentes e bem ditas que, de tão pertinentes e repetidas, já se tornaram chavões comportamentais, e parecem fichas de computador dissecadas de qualquer verdade emocional. E de repente está me dando uma urticária na alma, um desconforto interno que em tudo se assemelha à indigestão.

    Estamos fazendo com o amor o que já fizemos com o sexo. Na década passada parecia que tínhamos reinventado o sexo. Não se pensava, não se falava, não se praticava outro assunto. Toda a nossa energia pensante, todo o nosso esforço vital pareciam concentrados na imensa cama que erguíamos como única justificativa da existência humana. Transformamos o sexo em verdade. Adoramos um novo bezerro de ouro.

    Mas o ouro dos bezerros modernos é de liga baixa, que logo se consome na voracidade da mass media. O sexo não nos deu tudo o que dele esperávamos, porque dele esperávamos tudo. E logo a sociedade começou a olhar em volta, à procura de um outro objeto de adoração. Destronado o sexo, partiu-se para a grande festa de coroação do amor.

  Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos, analisando, procurando, destrinchando. E desgastando. Antes, quando eu pensava numa conversa séria, direita, com a pessoa que se ama, sabia a que me referia. Mas agora, quando ouço dizer que “o diálogo é fundamental para a manutenção dos espaços”, não sei o que isso quer dizer, ou melhor, sei que isso não quer dizer mais nada. Antes, quando eu pensava ou dizia que amor é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto. Mas agora, quando eu ouço repetido de norte a sul, como num gigantesco eco, que “a vida sem amor não tem sentido”, fico com a impressão de estar ouvindo um slogan publicitário e me retraio porque sei que estão querendo me impor um produto.

    A vida sem amor pode fazer sentido, e muito. É bom que a gente recomece a dizer isso. Mesmo porque há milhões de pessoas sem amor, que viveriam bem mais felizes se de repente a voz geral não lhes buzinasse nos ouvidos que isso é impossível. O mundo só andou geometricamente aos pares na Arca de Noé. Fora disso, anda emparelhado quem pode, quando pode. E o resto espera uma chance, sem nem por isso viver na escuridão.

   Antes que se frustrem as expectativas, como aconteceu com o sexo, seria prudente descarregar o amor, tirar-lhe dos ombros a responsabilidade. Ele não pode nos dar tudo. Nada pode nos dar tudo. Porque o tudo não existe. O que existe são parcelas, que, eternamente somadas e subtraídas, multiplicadas e divididas, nos aproximam e afastam do tudo. E a matemática dessas parcelas pode ser surpreendente: quando, como está acontecendo agora, tentamos agrupá-las todas em cima de uma única parcela – o amor −, elas não se somam, pelo contrário, se fracionam, causando o esfacelamento da parcela-suporte.

     Amor criativo é ótimo, dizem todos. E é verdade. Mas melhor ainda é pegar uma parte da criatividade que está concentrada no amor, e jogá-la na vida. Solta, ela terá possibilidades de contaminar o cotidiano, permear a vida toda e voltar a abastecer o amor, sem deixar-se absorver e esgotar por ele. Dedicar-se à relação é importante, dizem todos. E é verdade. Mas qualquer um de nós tem inúmeras relações, de amizade, vizinhança, sociais, e anda me parecendo que concentrar toda a dedicação na relação amorosa pode custar o empobrecimento das outras.

   Sim, o amor é ótimo. Porém acho que vai ficar muito melhor quando sair do foco dos refletores e passar a ser vivido com mais naturalidade. Quando readquirirmos a noção de que não é mais vital do que comer e banhar o corpo em água fria nem mais tranquilizador do que ter amigos e estar de bem com a própria cara. Quando aceitarmos que não é o sal da terra, simplesmente porque a terra é seu próprio sal, e é ela que dá sabor ao amor.

(Colasanti, Marina, 1937 – Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996) 

Analise as afirmativas:

I. O texto é considerado uma crônica por apresentar uma formalidade linguística e fazer uso de citações eruditas.

II. A autora lança mão de argumentos contundentes e, também subjetivos para defender seu ponto de vista.

III. O uso da narrativa em 3ª pessoa permite a autora se valer de um olhar mais subjetivo para os acontecimentos cotidianos.

IV. Pode-se dizer que o tom textual é de indignação e revolta, e por isso, há uma conclamação que sugere uma mudança de postura.

Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s):

Alternativas
Comentários
  • I. O texto é considerado uma crônica por apresentar uma formalidade linguística e fazer uso de citações eruditas. - ERRADA! O texto é repleto de linguagem coloquial (cotidiana, informal, popular). Ex: 4º parágrafo: " Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos..."

    II. A autora lança mão de argumentos contundentes e, também subjetivos para defender seu ponto de vista. CORRETA!

    III. O uso da narrativa em 3ª pessoa permite a autora se valer de um olhar mais subjetivo para os acontecimentos cotidianos. ERRADA! O uso da narrativa em 3ª pessoa permite a autora um olhar mais OBJETIVO, em que ela se inclui no que é dito pelo texto. Ex: 2º parágrafo: "Estamos fazendo (3º pessoa) com o amor o que já fizemos com o sexo." --> Indica que ela fez isto também.

    IV. Pode-se dizer que o tom textual é de indignação e revolta, e por isso, há uma conclamação que sugere uma mudança de postura. ERRADA! Penso que indignação e revolta sim, mas conclamação não, pois em nenhum momento a autora conclama (proferir em altas vozes; gritar, bradar. Implorar, suplicar). Ela apenas dá a sua opinião, seu ponto de vista mas não nos suplica a pensarmos como ela pensa.

     
  • III. Errado
    É O uso da narrativa em 1ª pessoa que permite a autora se valer de um olhar mais subjetivo para os acontecimentos cotidianos.
    "Cansei de amor!" (
    1ª pessoa sin.)
    "Estamos fazendo com o amor..." (1ª pessoa plu.)