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ID
1567981
Banca
COSEAC
Órgão
UFF
Ano
2015
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

1     (...) a democracia moderna, regime que admite conflitos, também gera um certo teor de conflito que poderia não existir. Quando um cargo é colocado em disputa, no âmbito público, aparecem candidatos. Ora, não é óbvio que sempre haja divergências, justificando candidaturas opostas. Mas é o que acontece. E, desde que os partidos foram considerados pilares da democracia representativa, a tendência deles é se diferenciarem, oporem-se. Então, a democracia não se limita a retratar divergências existentes na sociedade: ela aprofunda algumas, acentua-as, até mesmo as agrava.

2    Crítica parecida, por sinal, foi feita por sucessivos inimigos da “democracia dos partidos", que é a principal forma moderna de democracia – desde os totalitários até o presidente francês de Gaulle e pensadores marxistas não autoritários. Mas o regime democrático também cumpre um papel mais reconhecido, mais alardeado, que é a menina dos olhos de quem o defende: ele aceita um teor de conflito na sociedade. Admite como normal que haja tensões entre pessoas ou grupos. Pela primeira vez na história do mundo, desobriga os humanos de viver num todo harmônico, equilibrado. Porque a harmonia é uma empulhação. Na Ásia, o discurso confuciano, assentado na ideia de que a sociedade se organiza como uma família, leva a entender a discórdia como traição. No Ocidente, a comparação do Estado a um corpo harmônico e saudável autorizou considerar o divergente um membro gangrenado ou doente, que deve ser amputado. Quem não obedece ao amor do príncipe não é apenas um divergente, uma pessoa livre para pensar de outra forma: é um traidor, um ingrato, um infame.

3    Diante dessa representação hipócrita das relações sociais como amorosas e da conversão do amor em autoritarismo – porque quem não retribui o amor do ditador obedecendo-lhe em todas as coisas atrai o castigo –, a democracia simplesmente deixa as coisas acontecerem. Discorda? É um direito seu. Haverá regras para dizer a discordância e, mesmo, submetê-las ao voto. A democracia cria procedimentos para garantir o direito de oposição – que também reduzem o teor dos confrontos. 

4    Isso quer dizer que o conflito político não pode ser excessivo, e geralmente não o é. Primeiro, porque a política é a substituição da guerra. Em vez de armas, brigamos com votos. Eles não matam. O adversário não é inimigo. Não está em jogo, ao contrário do que pretendia Carl Schmidt, a extinção do outro. Pelo menos não se quer sua eliminação física, como na guerra, como com o inimigo. Segundo, porque a política se dá com palavras, que manejam emoções que se expressam no voto. Lembremos o que é “voto": o significado deste termo se vê em “votos de felicidade" ou de “feliz ano-novo". Votos são desejos. Expressamos nosso desejo em palavras, as do debate político, elaborando a decisão de votar em Fulano ou Beltrano.

5   Assim, a democracia representativa de partidos gera necessariamente conflitos, mas não os deixa transbordar para a forma bélica. Ela exige um certo teor de conflito, mas não excessivo. Não vive sem conflitos, mas morre se o conflito se exacerbar.

                                                                               (RIBEIRO, Renato Janine. Rev. Filosofia: set., 2014, p. 82.)



Dentre as mudanças de colocação do pronome átono propostas a seguir, aquela que se mostra amparada por nossas gramáticas normativas encontra-se em:

Alternativas
Comentários
  • Alguém pode explicar a letra B?

  • A alternativa B não pode porque colocando na ordem direta a frase começaria por pronome átono. O que não pode.

     

  • Na alternativa B a ênclise é a única forma correta pois logo após a vírgula não se usa a próclise. A vírgula "empurra" o pronome átono para depois do verbo. 

    “ela aprofunda algumas, acentua-as” (§ 1) 

  • Seya,

    Usamos ênclise quando há pausa antes do verbo sem palavra atrativa:

    - Se eu ganho na loteria, mudo-me  hoje mesmo.

    - “ela aprofunda algumas, acentua-as

    Referência: A gramática para concursos públicos -Fernando Pestana.

     

  • a)“a democracia não se limita a retratar divergências” (§ 1) / limita-se. ERRADO, A PALAVRA DE SENTIDO NEGATIVO ATRAI O PRONOME, É OBRIGATÓRIO A PRÓCLISE.

    b)“ela aprofunda algumas, acentua-as” (§ 1) / as acentua.  ERRADO, APÓS A VIRGULA OU NO INICIO DE FRASES É OBRIGATÁRIO A ENCLISE. exceção: EM SE TRATANDO...

    c) “que é a menina dos olhos de quem o defende” (§ 2) / defende-o. ERRADO, O PRONOME RALATIVO "QUEM" ATRAI O PRONOME, É OBRIGATÓRIO A PRÓCLISE.

    d)“o significado deste termo se vê em „votos de felicidade‟” (§ 4) / vê-se.  CERTO, É facultativo o uso da próclise ou da ênclise, caso o verbo não se encontre no início da frase, nem haja situações que justifiquem o uso específico de uma forma de colocação pronominal.

    e)“mas não os deixa transbordar para a forma bélica” (§ 5) / deixa-os.  ERRADO, A PALAVRA DE SENTIDO NEGATIVO ATRAI O PRONOME, É OBRIGATÓRIO A PRÓCLISE.

  • a - "...não se limita ..." -palavras negativas - atrativo/ próclise

    b - “ela aprofunda algumas..." - Pronomes indefinidos - atrativo/próclise

    c - "...dos olhos de quem o defende" - Pronomes relativos - atrativo/próclise

    d - GABARITO

    e - “mas não os deixa ..." - palavras negativas - atrativo/ próclise

  • Mas e essas virgulas duplas?