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ID
2375755
Banca
COPESE - UFJF
Órgão
UFJF
Ano
2017
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Ler devia ser proibido
(Guiomar de Gramont*)
A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-lo com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.
É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura? 
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão.
Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
Publicado originalmente em A formação do leitor: pontos de vista. Org. Juan Prado e Paulo Condini, Leia Brasil, 1999.
*Escritora e professora de Filosofia no Instituto de Filosofia e Artes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto)  

Assinale a alternativa em que o termo destacado foi empregado em sentido conotativo:

Alternativas
Comentários
  • não estou conseguindo imaginar no sentido conotativo essa letra b. kkkkkkkk

  • Também não consegui Alisson Bento, fiquei curiosa.

    Alguém pode explicar?

  • Depois que errei, acho que consegui entender. Partindo do pressuposto que horizonte é, conf. dicionário, "linha circular em que a terra ou o mar parecem unir-se ao céu, e que limita o campo visual de uma pessoa.", o que se quer dizer é que há muito a se descobrir além das montanhas - outro termo conotativo, porque não necessariamente há montanhas na imaginação, mas aqui é visto como um limite. 

    Espero ter ajudado, mas, se errei, corrijam-me. :)

     

  • Bem, marquei a letra "C", pois:

    “Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização.”

    Na oração o termo destacado, ao meu ver, ter o sentido de ignorante.

  • Quando se diz que há outros horizontes além das montanhas, está se dizendo que existe mais "coisas" (terras, rios, montanhas, sei lá... qq tipo de paisagem) além das montanhas. O "horizonte" mesmo é a linha imaginária que separa a terra do céu quando se olha ao longe. Não sei se é possível dizer que existe outro.

    Agora... concordo que as outras são tb passíveis de serem consideradas em sentido conotativo. A letra A mesmo, reformar o mundo. Não é mundo que irá se reformar, é a civilização. Tb o autor não está dizendo que seus pés e mãos vão ser substituídos por patas, ele está se referindo a ser um animal (pelo menos foi o que entendi). Enfim... dá para arrumar justificativa para várias alternativas, sem dúvida.

  • O erro da letra "A" esta no grifo da palavra mundo e nao na palavra "reforma".

    Tendo em vista este raciocinio faz sentido o "horizonte", no que tange a ideia de existirem mais coisa, porem, no sentido Denotativo tambem vejo como certa.

  • Gabarito Letra B.

  • Ao segredo é ler o texto inteiro para entender a que  cada frase se refere. A frase Isolada pode ter sentido denotativo ou conotativo.

  • Onde que mundo não está em sentido conotativo?

  • ''Antes estivesse ainda a passear de quatro patas'' Nenhum humano nunca teve patas! Haviam ancestrais que caminhavam com os quatro membros no chão e isso evoluiu com o tempo, agora humano com pata nunca vi!! Questão extremamente mal formulada!

  • ''Antes estivesse ainda a passear de quatro patas'' Nenhum humano nunca teve patas! Haviam ancestrais que caminhavam com os quatro membros no chão e isso evoluiu com o tempo, agora humano com pata nunca vi!! Questão extremamente mal formulada!