SóProvas


ID
2776843
Banca
FCC
Órgão
TRT - 14ª Região (RO e AC)
Ano
2018
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Atenção: Leia o texto abaixo para responder à questão.

    Permita-me uma pergunta um tanto primária para começar: você defende o silêncio como forma de resistência, mas de onde nasce o ruído? − Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira para manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis.
    O que você responderia a quem sustentasse que o silêncio é uma confissão de ignorância? − O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.
    É por essa qualidade de resistência que se tacha de louco quem caminha sem rumo? Sim, é o que acontece. E por isso o caminhar, como o silêncio, é uma forma de resistência política. No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente para onde você deve ir, por qual caminho e por qual meio. Caminhar porque sim, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor. A marcha permite advertir como é bonita a Catedral, como é brincalhão o gato que se esconde por ali, as cores do pôr do sol, sem qualquer finalidade, porque toda sua finalidade é esta: a contemplação do mundo. Frente a um utilitarismo que concebe o mundo como um meio para a produção, o caminhante assimila o mundo que as cidades contêm como um fim em si mesmo. E isso, claro, é contrário à lógica imperante. Daí a vinculação com a loucura.

(Entrevista de Pablo B. Málaga com David le Breton. Trad. de Sílvio Diogo. Disponível em: https://www.pensarcontemporaneo.com

No momento de sair de casa, de movimentar-se, você de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente para onde você deve ir... (último parágrafo)

Adequando-se a frase acima ao mesmo nível de formalidade das demais respostas de David le Breton, a redação resultante encontra-se em:

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: letra C.

     

    Resolvi assim:

    Ao responder as perguntas no primeiro e segundo parágrafos, o entrevistado usa a 1a pessoa do plural: "carregamos", "estamos", "recebemos", "Podemos utilizar", "conhecermos" etc; que é um traço de impessoalidade, o plural de modéstia. Assim, tentei substituir o "você" do terceiro parágrafo por uma alternativa que se aproximasse da 1a pessoa do plural. 

    Quase marquei a letra A, mas acredito que essa parte está errada: "para onde devemo-nos ir". As demais não estão na 1a do plural. 

     

    Me corrijam se eu estiver errada!

    Grande abraço!

     

  • a) No momento de sairmos de casa, de movimentarmos, de imediato nos vemos diante da interferência de critérios utilitaristas que nos evidenciam perfeitamente para onde devemo-nos ir. (devemos)

     b) No momento de sair-se de casa, de movimentar-se, de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente para onde se deve ir. (sair)

     c) No momento de sair de casa, de movimentarmo-nos, de imediato nos vemos diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente para onde devemos ir.

     d) No momento de a gente (=nós) sair (saírmos) de casa, de movimentar-se (movimentarmo-nos), de imediato nos vemos diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde (onde) a gente deve ir.

     e) No momento de sair de casa, de movimentar-te, de imediato te (tu) vês diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde (onde) deve ires (deves ir).

  • Gabarito - C

     

    a) No momento de sairmos de casa, de movimentarmos, de imediato nos vemos diante da interferência de critérios utilitaristas que nos evidenciam perfeitamente para onde devemo-nos ir.

     

    → O termo "onde" é um advérbio, sendo, portanto, um fator proclítico.

     

    → Correção: "para onde NÓS devemos ir".

     

    ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

     

     b) No momento de sair-se de casa, de movimentar-se, de imediato se vê diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente para onde se deve ir.

     

    → Partícula reflexiva "se" desnecessária.

     

    ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

     

    d) No momento de a gente sair de casa, de movimentar-se, de imediato nos vemos diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde a gente deve ir.

     

    → O enunciado pede para adequarmos a frase ao mesmo nível de formalidade das demais respostas de David le Breton, portanto, o uso do termo "a gente", embora exista, soa muito informal para o nível gramatical de David, tendo em vista que, durante toda sua fala, ele usou, sobretudo, a 1º pessoa do plural "nós".

     

    → O termo "aonde" tem a ideia de movimento. Ex.: "Sérgio, aonde você está?". Ao passo que, o texto passa uma ideia de lugar fixo "onde você deve ir", portanto, o uso do "onde" é o mais adequado.

     

    ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

     

    e) No momento de sair de casa, de movimentar-te, de imediato te vês diante da interferência de critérios utilitaristas que evidenciam perfeitamente aonde deve ires.

     

    → Novamente o nível de formalidade foge totalmente do padrão usado por David le breton, com o uso da 2º pessoa do singular.

     

    -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

     

    Confira o meu material gratuito --> https://drive.google.com/drive/folders/1sSk7DGBaen4Bgo-p8cwh_hhINxeKL_UV?usp=sharing

  • Excelente explicação do Sérgio. Endosso e indico o material dele. Extremamente valioso. 

  • Fiquei com dúvida quanto a alternativa "B".

    Tirar o "se" não fere o paralelismo?

    sair-se ; movimentar-se

    sair ; movimentar (essa palavra não deveria perder o "se" também?)