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ID
2851609
Banca
CETREDE
Órgão
EMATERCE
Ano
2018
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Leia o texto a seguir para responder à questão.


As caridades odiosas


    Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchava na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.

    ― Um doce, moça, compre um doce para mim.

    Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água. Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.

    De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: – Que doce você...

    Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.

    ― Que outro doce você quer? Perguntei ao menino escuro.

    Este, que mexendo as mãos e a boca ainda espera com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com uma delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.

    ― Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los... E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:

    ― Afinal uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas, mas ninguém quis dar.

    Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o Sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de... E para isso foi necessário que outros não lhe tivessem dado doce.

Clarice Lispector

Sobre o texto, marque a opção INCORRETA.

Alternativas
Comentários
  • Acho que tem dois gabaritos, e diferentes da questão.


    Dizer que o menino está com fome é uma extrapolação de um pensamento nosso de que a criança ao pedir comida, necessariamente está com fome, e nao com um desejo de comer algo que não tem condição de comprar.


    Dizer que ela sentiu vergonha pelo fato de ele estar sujo também é uma extrapolação.


    Sim, pode ser que o menino queria dois doces, tanto é que aceitou no final. A diferença é que ele só pediu por um.

  • Questão, na minha opinião, muito subjetiva; envolve compreensão e interpretação.

    Analisando todas as opções (pede a opção INCORRETA) :

    A Interpretação: não está no texto, mas supõe-se que, por ser um menino de rua, estava com fome. (Opção correta)

    B Interpretação: a autora/personagem diz que estava com pudor (vergonha), talvez. Não deixa claro que era vergonha, mas algo a incomodava naquela situação. No último parágrafo fala novamente da vergonha, mas também interroga. (Opção correta)

    C Compreensão: está bem claro no último parágrafo. (Opção correta)

    D Interpretação (ou compreensão): Sim, a autora/personagem revela um misto de emoções e reflexão. (Opção correta)

    E Compreensão e interpretação: Embora se pense que um menino de rua, faminto e que estava pedindo doce há mais de uma hora na porta de uma confeitaria estivesse com muita fome, ele responde de forma clara e direta que não queria outro doce, apesar de ter aceitado logo em seguida por imposição da autora/personagem. (Opção incorreta)

    Como já disse, questão muito subjetiva, e difícil.

    Mas, por exclusão, a mais coerente é a letra E.


    Gabarito: E

  • Letra E é a incorreta concreta e explícita no texto, pois o menino recusou o 2º doce.

    Entretanto, a Letra A pode ser considerada incorreta se levar-se em conta que um doce está mais para satisfazer um desejo do menino à fome. Para fome, um bom sanduíche ou um prato de comida seria mais acertado. Ainda, apenas por estar sujo e mal vestido induziu a doadora num juízo superficial quanto ao menino ser de rua, pois nada no texto confirma esta informação.

  • É uma questão de duas possíveis respostas, visto que nada menciona no texto ou deixa a entender que o garoto estava com fome..

    a letra E é a mais indicada porque se ele recusou o segundo doce, mesmo aceitando depois, o que importa é que ele rejeitou de primeira mão.

  • "Sobre o texto", marque a opção INCORRETA.

    É uma questão de compreensão, está escrito no texto!!

    letra E