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ID
3226414
Banca
IBADE
Órgão
JARU-PREVI - RO
Ano
2019
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

TEMPOS MODERNOS


    Não tendo assistido à inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar. (...)

     De repente ouvi vozes estranhas, pareceu-me que eram burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente); eram eles mesmos. Como eu conheço um pouco a língua dos Houyhnhnms, pelo que dela conta o famoso Gulliver, não me foi difícil apanhar o diálogo. Bem sei que cavalo não é burro, mas reconheci que a língua era a mesma. O burro fala menos, decerto, é talvez o trapista daquela grande divisão animal, mas fala. Fiquei inclinado e escutei:

    - Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda.

    O da esquerda:

    - Desde que a tração elétrica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro.

    - Claro parece, mas entre parecer e ser, a diferença é grande. (...) O bond elétrico apenas nos fará mudar de senhor.

    - De que modo?

    - Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos já precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente às carroças.

    - Pela burra de Balaão! exclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? Nenhum prêmio? Nenhum sinal de gratificação? Oh, mas onde está a justiça deste mundo?

    - Passaremos às carroças – continuou o outro pacificamente – onde a nossa vida será um pouco melhor; não que nos falte pancada, mas o dono de um burro sabe mais o que ele lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer cousa que nos torne incapaz restituir-nos-á a liberdade...

    - Enfim!

   - Ficaremos soltos na rua, por pouco tempo, arrancando alguma erva que aí deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de erva, que nem sempre é viçosa? Enfraqueceremos, a idade ou a lazeira ir-nos-á matando, até que, para usar esta metáfora humana – esticaremos a canela. Então teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de três dias, a vizinhança começa a notar que o burro cheira mal; conversação e queixumes. No quarto dia, um vizinho, mais atrevido, corre aos jornais, conta o fato e pede uma reclamação. No quinto dia sai a reclamação impressa. No sexto dia, aparece um agente, verifica a exatidão da notícia; no sétimo, chega uma carroça, puxada por outro burro, e leva o cadáver.

    Seguiu-se uma pausa.

    - Tu és lúgubre, disse o burro da esquerda, não conheces a língua da esperança.

    - Pode ser, meu colega; mas a esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza sem par. A nossa raça é essencialmente filosófica. Ao homem que anda sobre dois pés, e provavelmente a águia, que voa alto, cabe a ciência da astronomia. Nós nunca seremos astrônomos. Mas a filosofia é nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito são perfeitas quimeras.

(Machado de Assis, Crônica de 16 de outubro de 1892)


Trapista: relativo à ordem religiosa da Trapa, ramo beneditino dos cistercienses, fundada em 1140.

“Não TENDO ASSISTIDO à inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles.” A alternativa que apresenta a mesma regência da expressão verbal destacada é:

Alternativas
Comentários
  • Gabarito E

    "Não TENDO ASSISTIDO à inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles."

    O verbo assistir é um transitivo indireto e rege preposição "a", logo temos preposição "a" + artigo "a" inauguração.

    Letra E 》 verbo "aspirar" no sentido de "desejar" é um transitivo indireto, pois quem aspira "a" alguma coisa.

    Demais alternativas:

    A) sol despontou ⇢ temos um verbo intransitivo, não sendo necessário a junção de objeto direto e objeto indireto para complementar o seu sentido.

    B) "preferir" ⇢Quem prefere prefere algo, logo temos um transitivo direto.

    C) "pagar" ⇢ empregado como transitivo direto: pagar alguma coisa

    D) "esquecer" ⇢ empregado como transitivo direto: esquecer alguma coisa.

  • GABARITO: LETRA E

    ? ?Não TENDO ASSISTIDO à inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles.? 

    ? Verbo "assistir" com sentido de "ver" (=transitivo indireto ? à inauguração dos bonds elétricos), com sentido de "auxiliar", "ajudar" (=transitivo direto ? A enfermeira assistiu o médico na realização da cirurgia).

    A) O sol despontou às seis horas pontualmente ? verbo intransitivo, não pede complemento, o que vem após o verbo é adjunto adverbial de tempo.

    B) Prefiro as cenas de ficção científica moderna ? verbo "preferir" está sendo usado como um transitivo direto, quem prefere, prefere alguma coisa (=pede um complemento sem preposição).

    C) Paguei as prestações do meu imóvel em dia ? usado como transitivo direto, complemento é coisa (=sem preposição), pode ser também transitivo indireto quando o complemento é pessoa física ou jurídica (=complemento verbal com preposição ? Paguei ao banco) e pode ser transitivo direto e indireto quando um complemento é "coisa" e o outro é "pessoa" (=paguei a dívida ao banco).

    D) Esqueci a carteira de identidade no consultório ? quem esqueci, esqueci alguma coisa (=transitivo direto, complemento sem preposição), quando for pronominal, será transitivo indireto (=esqueci-me de carregar o celular).

    E) Todos aspiramos a uma vida livre e próspera ? "aspirar" com sentido de almejar é transitivo indireto (=exige complemento inciado pela preposição "a"), temos aqui nossa resposta.

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