SóProvas


ID
3425848
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Recife - PE
Ano
2020
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

                                                   Texto I

                                                    Culpa

                                                                                                                 Mario Prata


      Por que a culpa? É o que eu tenho perguntado à minha psicanalista.

      No princípio era o verbo e eu achava que só eu me sentia culpado. Com o passar do tempo (e da verba), fui descobrindo que todo criador tem culpa. Não no cartório. Mas na consciência.

      Vou tentar explicar.

      Todo mundo acha que a pessoa que vive de criar, ou seja, um criador, não faz nada o dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O problema é que ninguém considera o trabalho de pensar como ofício. Daí a culpa ensimesmada. Será que só pode ser considerado trabalhador o sujeito que fica o dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo pela janela olha a uva de Atibaia, melancia barata, melancia barata?

      Você vê uma frase num out-door tipo refresca até pensamento. São três palavrinhas mágicas. O sujeito que inventou isso deve ganhar uma fortuna por mês. O que ninguém entende é que ele trabalha há vinte neste ofício. Pode ser que a frase tenha saído de um estalo. Mas um estalo vinte anos depois. Não precisa ser nenhuma brastemp para se ter uma ideia dessas. Ou precisa? Mas o povo pensa: ganhar essa fortuna para escrever uma bobagem dessas?

      Para aliviar meu sofrimento, penso no Romário que trabalha umas dez horas por mês e ganha 100 mil dólares. Será que ele tem culpa? O Chico Buarque, que fica meses sem trabalhar, jogando futebol, será que ele acorda com culpa? E o Erasmo Carlos? Tem uma culpa tremendona?

      Vou almoçar fora e quase emendo com o fim do dia. Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora. Juro que eu trabalho, gente. Penso, invento, crio. E esses funcionários fantasmas, que trabalham em várias repartições e nunca comparecem? Será que eles não têm culpa? Será que só eu me sinto culpado neste país?

      Uma vez perguntei para o Chico Buarque, que acabava de acordar às duas da tarde, se ele não tinha culpa. Já tive. Superei. E o Caetano Veloso que nunca acorda antes das quatro (da tarde)?

      Foram anos e anos de culpa para conseguir escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não adiantou nada. Continuo com culpa. Acho que eu nunca deveria ter saído do Banco do Brasil. Não bater ponto desnorteia a minha vida.

Adaptado de:<https://marioprata.net/cronicas/culpa/> . Acesso em: 13 Jan. 2020. 

Considerando as informações e as ideias do texto de apoio, informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma a seguir e assinale a alternativa com a sequência correta.


( ) No trecho “Bebendo cerveja. Mas pensando.”, a relação adversativa estabelecida entre as orações revela que ele não sente culpa de beber cerveja, mas de exercer um trabalho de cunho mais mental.

( ) “Vou tentar explicar.” revela que o cronista pressupõe que suas explicações talvez não sejam suficiente, pois alguns leitores não entendem a profissão que ele exerce.

( ) O trecho “Foram anos e anos de culpa para conseguir escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não adiantou nada.” revela que o cronista escreve menos de uma crônica por ano.

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: LETRA E

    (V) No trecho “Bebendo cerveja. Mas pensando.”, a relação adversativa estabelecida entre as orações revela que ele não sente culpa de beber cerveja, mas de exercer um trabalho de cunho mais mental.

    (V) “Vou tentar explicar.” revela que o cronista pressupõe que suas explicações talvez não sejam suficiente, pois alguns leitores não entendem a profissão que ele exerce → segundo o texto: Vou tentar explicar. Todo mundo acha que a pessoa que vive de criar, ou seja, um criador, não faz nada o dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O problema é que ninguém considera o trabalho de pensar como ofício. Daí a culpa ensimesmada. Será que só pode ser considerado trabalhador o sujeito que fica o dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo pela janela olha a uva de Atibaia, melancia barata, melancia barata

    (F) O trecho “Foram anos e anos de culpa para conseguir escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não adiantou nada.” revela que o cronista escreve menos de uma crônica por ano → incorreto, não temos a ideia de que menos de uma crônica é escrita por ano (=extrapolação das ideias textuais).

    ☛ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

  • Sinceramente, não acho que a letra A esteja correta.

    O autor está sendo irônico, pela minha interpretação, ele não sente realmente culpa de trabalhar escrevendo, mas faz uma ironia com o senso comum.

  • Também não acredito que a A esteja errada

  • adoro os comentários do Arthur

  • Só eu estou com vício do estilo CESPE e começo a considerar quase tudo como extrapolação? Vide a alternativa A

  • Acredito que a opção C esteja correta.

    "vou tentar explicar"...(Isto não indica pressupor que meus argumentos serão insuficientes ou que alguns leitores não os entenderão?)

    Segunda opção (V)

    Na primeira opção, o conectivo "Mas" indica que há culpa por estar bebendo cerveja, pois beber cerveja, no almoço, ok, continuar bebendo, a tarde toda, questionável. Primeira opção (F)

    O texto não afirma a periodicidade com que o autor escreve, apenas informa que ele levou anos e anos para escrever uma crônica sobre o tema "CULPA". Terceira opção (F)

    Resposta F-V-F

  • A primeira afirmação poderia ser V ou F dependendo do ponto de vista de cada um.

    Há quem diga que a relação é de adversidade, mas ao meu ver (olha a relação de adversidade aí) é uma relação aditiva, pois é bem possível a pessoa beber e pensar concomitantemente.

    "Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora."

    PODERIA SER ASSIM: "Bebendo cerveja. E pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora."

    Como você pode perceber, com a troca da conjunção "Mas" pela "E", o sentido continuaria o mesmo. Não haveria problema algum.

  • A primeira afirmação poderia ser V ou F dependendo do ponto de vista de cada um.

    Há quem diga que a relação é de adversidade, mas ao meu ver (olha a relação de adversidade aí) é uma relação aditiva, pois é bem possível a pessoa beber e pensar concomitantemente.

    "Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora."

    PODERIA SER ASSIM: "Bebendo cerveja. E pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora."

    Como você pode perceber, com a troca da conjunção "Mas" pela "E", o sentido continuaria o mesmo. Não haveria problema algum.

  • Letra A não está correta.

    "Beber cerveja. Mas pensando". Ele diz que está bebendo, mas logo se justifica e diz que está pensando. Ninguém se justifica quando suas ações são corretas, mas quando estão erradas. Uma forma de a pessoa se explicar. Uma equipe de português não saber disso...

  • Foram anos e anos de culpa para conseguir escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não adiantou nada. Continuo com culpa. Acho que eu nunca deveria ter saído do Banco do Brasil. Não bater ponto desnorteia a minha vida.

    O Texto mostra o tempo inteiro que ele sente culpa, que continua sentindo culpa, e ao Beber a Cerveja ele continua Pensando nesses sentimentos de culpa ao qual ele assume no texto. Se neste caso não houvesse o segundo pensando: "Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora" eu concordaria com a banca, mas da forma que esta não.

  • Dei-me o gabarito que dou um jeito de justificá-lo

  • Tenho notado que o Instituto AOCP usa a técnica do velho chute quando estiver na dúvida, explico:

    primeira coluna tem mais alternativa V.

    segunda coluna tem mais alternativa V.

    terceira coluna tem mais alternativa F.

    DESSA FORMA, chega na resposta.

    Mas atenção, não é 100% por cento seguro, vejo que é uma tendência dessa banca, só faz isso, se, e se somente se, tiver que chutar.

    #DPCPA.

  • Em momento nenhum o autor mostra culpa por está bebendo cerveja, mas que também está pensando, e quanto a isso sim ele sente culpa.

    ao meu ver, o erro da banca não foi esse mas sim na segunda alternativa,

    ( ) “Vou tentar explicar.” revela que o cronista pressupõe que suas explicações talvez não sejam suficiente, pois alguns leitores não entendem a profissão que ele exerce.

    Pois, não acho que ele pressuponha que alguns leitores não vão entender o trabalho dele, mas sim que TODOS não entendem o trabalho dele, e ele deixa isso bem claro, sendo essa falta de entendimento o que faz com que ele sinta culpa

  • Ele sente culpa de beber também no almoço e até tarde. É tudo interpretação do contexto. Ele sente culpa por todo o tempo que passa só pensando. Bebendo e pensando... sem trabalhar em "algo formal".