SóProvas


ID
3956608
Banca
Itame
Órgão
Prefeitura de Edéia - GO
Ano
2020
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Leia o texto para responder à questão 

TABACARIA
Fernando Pessoa
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo não estão nesta hora génios-para-si-mesmo sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
[...]

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
[...]

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
(Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Atica, 1944-252)


Considerando o contexto, na quinta estrofe, o eu lírico predominantemente,

Alternativas
Comentários
  • ✅ Gabarito: C

    5ª estrofe: Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa, Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Génio? Neste momento [...].

    ➥ O eu-lírico explica o seu fracasso de vida atribuindo ao fato de nunca ter estabelecido objetivos para si mesmo.

    ➥ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

  • A questão é de interpretação e compreensão textual e teremos que indicar qual questão informa o que nos passa melhor como informação o eu lírico na estrofe.

    Estrofe representa um conjunto de versos, que por sua vez, correspondem a uma linha do texto poético.

    Eu lírico é um termo usado dentro da literatura para designar o pensamento geral daquele que está narrando um poema.

    a) agradece as oportunidades que foram oferecidas a ele e que mudaram a sua vida.

    Incorreta. Não, na verdade ele até diz que não o serviu de nada a aprendizagem "Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada./ A aprendizagem que me deram,/Desci dela pela janela das traseiras da casa,/ Fui até ao campo com grandes propósitos.

    b) descreve todos os seus pensamentos positivos mostrando que se tornou o que sonhava ser.

    Incorreta. Na verdade ele diz que sonha mais que fez. "O mundo é para quem nasce para o conquistar/

    E não para quem sonha que pode conquistá-lo,/ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

    c) explica o seu fracasso de vida atribuindo ao fato de nunca ter estabelecido objetivos para si mesmo.

    Correta. Sim, é explicado pelo eu lírico que ele sonhou com muitas coisas e realizou poucas por não ter corrido atrás dos objetivos. "O mundo é para quem nasce para o conquistar/

    E não para quem sonha que pode conquistá-lo,/ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

    d) relata a sua marcante história de vida, lutas, sonhos, suas aspirações altas e conquistas realizadas.

    Incorreta. Relata uma vida que não conquistou e sim sonhou. "Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez."

    GABARITO C

  • A estrofe inicia dizendo que o Eu lírico falhou em tudo:

    Falhei em tudo.

    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

    Depois ele afirma que:

    O mundo é para quem nasce para o conquistar

    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

    C explica o seu fracasso de vida atribuindo ao fato de nunca ter estabelecido objetivos para si mesmo.

  • deu trabalho lembrar o que era estrofe kkk