SóProvas


ID
3970975
Banca
Itame
Órgão
Prefeitura de Campinorte - GO
Ano
2019
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Leia o texto para responder a questão.


CASO DE CANÁRIO

Carlos Drummond de Andrade


    Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

    __ Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

    __ Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

    __ Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

    O sogro e a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

    __ Vai, meu bem.

    Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

     __ Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

    Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.

    E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

    Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo. No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

     __ Ui!

    Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

    __ Ele estava precisando mesmo era de éter - concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

No trecho “Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.” Predomina a linguagem

Alternativas
Comentários
  • ✅ Gabarito: B

    ✓ “Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.” 

    ➥ Temos a predominância de uma linguagem formal (marcada pelo uso da norma culta). O texto não apresenta nenhum indício de linguagem informal (abreviações, gírias, nada disso).

    ➥ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

  • Marquei a alternativa A.

    O texto também apresenta indícios de linguagem poética

    Mas o gabarito foi a alternativa B.

  • Por que não pode ser a A, gostaria de saber. Seria porque o trecho faz parte de uma narrativa e linguagem poética está presente apenas em poemas? Ou seria viagem dizer isso? rs

  • Marquei Letra 'A' por falta de atenção, mas a correta é B.

    A linguagem diferencia-se como Formal ou Informal. Já as funções da linguagem podem ser referencial, emotiva, poética, fática, conativa e metalinguística.

  • Eu não vejo predominância nenhuma de linguagem formal.

  • Acredito que a alternativa correta seja a B porque, usa expressões que estão pautada no uso correto das normas gramaticais bem como na boa pronúncia das palavras, seguindo o sentido real (fique no trecho, não no todo). Ao contrario da função poética que valoriza o texto na sua elaboração, ou seja, quando o autor faz uso de combinação de palavras, figuras de linguagem (metáfora, antítese, hipérbole, aliteração, etc.), para significar e traduzir um sentimento.

  • o texto não a presenta nenhum informalidade nem poética. As palavras estão empregadas em seus respectivos significados e respeitando as regras gramaticais.

  • LINGUAGEM e não FUNÇÕES.

    Gab B

  • Na ultima lona não seria uma linguagem coloquial???

  • Se esse texto não possuir traços poéticos então ...

    "repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar"

    Não há nada poético ou lírico no trecho acima ?

  • 'Na ultima lona"  e "morto-vivo" não seria um tom informal?

  • OBSCURIADADE.

    RASGA SEU ESTUDO POR CAUSA DE BANCA NÃO.

    FOCO!!!!