SóProvas


ID
4873252
Banca
IDIB
Órgão
CRM-MT
Ano
2020
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

TEXTO I
Os outros que ajudam (ou não)

    Muitos anos atrás, conheci um alcoólatra, que, aos quarenta anos, quis parar de beber. O que o levou a decidir foi um acidente no qual ele, bêbado, quase provocara a morte da companheira que ele amava, por quem se sentia amado e que esperava um filho dele.
    O homem frequentou os Alcoólicos Anônimos. Deu certo, mas, depois de um tempo, houve uma recaída brutal. Desanimado, mas não menos decidido, com o consenso de seu grupo do AA o homem se internou numa clínica especializada, onde ficou quase um ano – renunciando a conviver com o filho bebê. Voltou para casa (e para as reuniões do AA), convencido de que nunca deixaria de ser um alcoólatra – apenas poderia se tornar, um dia, um "alcoólatra abstêmio".
    Mesmo assim, um dia, depois de dois anos, ele se declarou relativamente fora de perigo. Naquele dia, o homem colocou o filhinho na cama e sentou-se na mesa para festejar e jantar. E eis que a mulher dele chegou da cozinha erguendo, triunfalmente, uma garrafa de premier cru de Château Lafite: agora que estava bem, certamente ele poderia apreciar um grande vinho, para brindar, não é? O homem saiu na noite batendo a porta. A mulher que ele amava era uma idiota? Ou era (e sempre foi) não sua companheira de vida, mas de sua autodestruição? Seja como for, a mulher dessa história não é um caso isolado. Quem foi fumante e conseguiu parar quase certamente já encontrou um amigo que um dia lhe propôs um cigarro "sem drama": agora que parou, você vai poder fumar de vez em quando – só um não pode fazer mal.
    Também há os que patrocinam qualquer exceção ao regime que você tenta manter estoicamente: se for só hoje, massa não vai fazer diferença, nem uma carne vermelha. Seja qual for a razão de seu regime e a autoridade de quem o prescreveu, para parentes e próximos, parece que há um prazer em você transgredir.
    Há hábitos que encurtam a vida, comprometem as chances de se relacionar amorosa e sexualmente e, mais geralmente, levam o indivíduo a lidar com um desprezo que ele já não sabe se vem dos outros ou dele mesmo. Se você precisar se desfazer de um desses hábitos, procure encorajamento em qualquer programa que o leve a encontrar outros que vivem o mesmo drama e querem os mesmos resultados. É desses outros que você pode esperar respeito pelo seu esforço – e até elogios (quando merecidos).
    Hoje, encontrar esses outros é fácil. Há comunidades on-line de pessoas que querem se livrar do sedentarismo, da obesidade, do fumo, do alcoolismo, da toxicomania etc. Os membros registram e transmitem, todos os dias, os seus fracassos e os seus sucessos. No caso do peso, por exemplo, há uma comunidade cujos integrantes instalam em casa uma balança conectada à internet: o indivíduo se pesa, e os demais sabem imediatamente se ele progrediu ou não.
    Parêntese. A balança on-line não funciona pela vergonha que provoca em quem engorda, mas pelos elogios conquistados por quem emagrece. Podemos modificar nossos hábitos por sentirmos que nossos esforços estão sendo reconhecidos e encorajados, mas as punições não têm a mesma eficácia. Ou seja, Skinner e o comportamentalismo têm razão: uma chave da mudança de comportamento, quando ela se revela possível, está no reforço que vem dos outros ("Valeu! Força!"). Já as ideias de Pavlov são menos úteis: os reflexos condicionados existem, mas, em geral, se você estapeia alguém a cada vez que ele come, fuma ou bebe demais, ele não vai parar de comer, fumar ou beber – apenas vai passar a comer, fumar e beber com medo.
    Volto ao que me importa: por que, na hora de tentar mudar um hábito, é aconselhável procurar um grupo de companheiros de infortúnio desconhecidos? Por que os nossos próximos, na hora em que um reforço positivo seria bem-vindo, preferem nos encorajar a trair nossas próprias intenções?
    Há duas hipóteses. Uma é que eles tenham (ou tivessem) propósitos parecidos com os nossos, mas fracassados; produzindo o nosso malogro, eles encontrariam uma reconfortante explicação pelo seu. Outra, aparentemente mais nobre, diz que é porque eles nos amam e, portanto, querem ser a nossa exceção, ou seja, querem ser aqueles que nós amamos mais do que a nossa própria decisão de mudar. Como disse Voltaire, "que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu".

CONTARDO, Calligaris. Todos os reis estão nus. Org. Rafael Cariello. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

Assinale a alternativa em que a colocação do pronome átono não obedece às regras determinadas pela norma padrão culta da Língua Portuguesa.

Alternativas
Comentários
  • A posição do pronome oblíquo átono (me, te, se, lhe, vos, o[s], a[s], etc.) pode ser distintamente três: próclise (antes do verbo. p.ex. não se realiza trabalho voluntário), mesóclise (entre o radical e a desinência verbal, p.ex. realizar-se-á trabalho voluntário) e ênclise (após o verbo, p.ex. realiza-se trabalho voluntário). 

    a) Eu não me calarei diante dessas injustiças.

    Correto. O advérbio "não" atrai para perto de si o pronome "me";

    b) Como julgariam-na se soubessem da sua fuga da dieta.

    Incorreto. O advérbio "como" atrai para perto de si o pronome "a", na forma "na". Correção: "Como a julgariam (...)";

    c) Ia-me esquecendo das prescrições sobre minha nova dieta.

    Correto. Há uma locução verbal cujo verbo principal é um gerúndio. Além disso, tal locução está encabeçando o período. Diante da situação, há duas possíveis colocações pronominais: a que já está presente ou ênclise ao verbo principal (ia esquecendo-me);

    d) Só quero avisá-lo sobre esses amigos que não ajudam

    Correto. Há uma palavra atrativa (advérbio "só") e uma locução verbal (quero avisar) com verbo no infinitivo como principal. Tais aspectos impedem a ênclise após o verbo auxiliar (só quero-o avisar), mas acede-a antes do verbo auxiliar (só o quero avisar) e permite conservar o pronome como se encontra na estrutura, após o infinitivo (só quero avisá-lo).

    Letra B

  • GABARITO: LETRA B

    ► O pronome oblíquo átono pode ocupar três posições em relação ao verbo com o qual se relaciona: a ênclise (depois do verbo); próclise (antes do verbo); e a mesóclise (dentro do verbo). Por ser uma partícula átona, não inicia oração e, entre os verbos de uma locução, liga-se a um deles por hífen.

    PRONOMES ATÓNOS: - me, nos, te, vos, se, o(s), a(s), lhe(s);

    PRÓCLISE

    Na próclise, o pronome é colocado antes do verbo. Isso acontece quando a oração contém palavras que atraem o pronome:

    1. Palavras que expressam negação tais como “não, ninguém, nunca”:

    Não o quero aqui. / Nunca o vi assim.

    2. Pronomes relativos (que, quem, quando...), indefinidos (alguém, ninguém, tudo…) e demonstrativos (este, esse, isto…):

    Foi ela que o fez. / Alguns lhes deram maus conselhos. / Isso me lembra algo.

    3. Advérbios ou locuções adverbiais:

    Ontem me disseram que havia greve hoje. / Às vezes nos deixa falando sozinhos.

    4. Palavras que expressam desejo e também orações exclamativas:

    Oxalá me dês a boa notícia. / Deus nos dê forças.

    5. Conjunções subordinativas:

    Embora se sentisse melhor, saiu. / Conforme lhe disse, hoje vou sair mais cedo.

    6. Palavras interrogativas no início das orações:

    Quando te deram a notícia? / Quem te presenteou?

    MESÓCLISE

    Na mesóclise, o pronome é colocado no meio do verbo. Isso acontece com verbos do futuro do presente ou do futuro do pretérito, a não ser que haja palavras que atraiam a próclise:

    Orgulhar-me-ei dos meus alunos. (verbo orgulhar no futuro do presente: orgulharei);

    Orgulhar-me-ia dos meus alunos. (verbo orgulhar no futuro do pretérito: orgulharia).

    ÊNCLISE

    Na ênclise, o pronome é colocado depois do verbo. Isso acontece quando a oração contém palavras que atraem esse tipo de colocação pronominal:

    1. Verbos no imperativo afirmativo:

    Depois de terminar, chamem-nos. / Para começar, joguem-lhes a bola!

    2. Verbos no infinitivo impessoal:

    Gostaria de pentear-te a minha maneira. / O seu maior sonho é casar-se.

    3. Verbos no início das orações:

    Fiz-lhe a pessoa mais feliz do mundo. / Surpreendi-me com o café da manhã.

    TODA MATÉRIA.

  • não se usa enclíse com verbo no futuro do pretérito do indicátivo.

  • Mesóclise só seria cabível se a oração começasse com o VERBO! Como ela começa com um ADVÉRBIO o certo é PRÓCLISE! A frase correta seria: Como a jugariam ...

  • O advérbio "como" atrai para perto de si o pronome "a", na forma "na". Correção: "Como a julgariam (...)";

  • TODO COMENTARIO AQUI SERVE PARA AJUDAR,POIS QUEM SE DA O TRABALHO DE COMENTAR PENSA EM AJUDAR OUTROS. ENTAO OS ERROS DEVEM SER CORRIGIDOS E NAO RIDICULARIZADOS .

  • "Elogie em público, corrija em particular."

    Se a pessoa errou, tenha um pingo de empatia e corrija a pessoa no privado. Debochar do próximo em público que é algo grotesco!

  • Analisando cada alternativa:

    A) Eu não me calarei diante dessas injustiças.

    CORRETO: Veja que o não é uma palavra negativa, portanto, atrativa para ocorrência de próclise.

    B) Como julgariam-na se soubessem da sua fuga da dieta.

    ERRADO: entendo que a colocação pronominal está incorreta, pois como é uma conjunção subordinada adverbial, sendo, portanto, uma atrativa de próclise. Então, a mesóclise não se aplica na questão. A escrita correta seria: "Como a julgariam..."

    C) Ia-me esquecendo das prescrições sobre minha nova dieta.

    CORRETO: trata-se de uma locução verbal (verbo auxiliar +gerúndio), onde a ÊNCLISE ao verbo auxiliar é possível quando não há elemento atrativo de PRÓCLISE.

    D) Só quero avisá-lo sobre esses amigos que não ajudam.

    CORRETO: é o caso de pronome obliquo colocado após verbo (ênclise) terminado em R (avisar), transformando-se em LO e desaparecendo a letra R.

  • LETRA B

  • letra( B)

    O ADVERBIO É ATRATIVO PARA PROCLISE !

    O advérbio "como" atrai para perto de si o pronome "a", na forma "na".

    MACETÃO ?

    QUAIS CASOS SAO ATRATIVOS DE PROCLISE ?

    1 PALAVRAS NEGATIVAS

    2 PRONOME RELATIVO

    3 PRONOME INTERROGATIVO

    4 PRONOME INDEFINIDO

    5 VERBOS NO PARTICIPIO

    6 EM+ GERUNDIO

    7 ADVERBIO SEM VIRGULAS , POIS COM VIRGULAS É ENCLISE

    #ESTUDA GUERREIRO

    FÉ NO PAI QUE SUA APROVAÇÃO SAI !

  • Alô guerreiros

    COMO SABER SE CASO FACULTATIVO DE PRÓCLISE É MESÓCLISE ?

    QUANDO NA ORAÇÃO TIVER UM SUJEITO EXPRESSO

    OU

    INFITIVO + NÃO

    #ESTUDAGUERREIRO

    FÉ NO PAI QUE SUA APROVAÇÃO SAI !

  • Julgar-se-iam-na, parece errado mas é assim ou julga-se-iam ela

    Mesóclise: Futuro e futuro do pretérito

    Embora esse "se" está com cara de conjunção condicional

    mas estou enferrujado, pelo menos acertei, kkkk

  • Não relacionado à resposta, mas não custa relembrar os casos de colocação pronominal com locuções verbais.

    > Se for Verbo Auxiliar + Particípio, admite-se todas as posições menos a ênclise no particípio *já que é regra geral de que particípio não aceita ênclise.

    Logo:

    José me havia convidado (próclise no auxiliar havia)

    José havia-me convidado (ênclise no auxiliar havia)

    José havia me convidado (próclise no verbo principal em forma nominal particípio)

    > Quando houver fator atrativo, APENAS AS PRÓCLISES SERÃO ACEITAS graças à proximidade.

    José não me havia convidado | José não havia me convidado

    > Se for Verbo Auxiliar + Infinitivo / Gerúndio, admite-se todas as posições.

    João lhe deve fazer o favor | Eles te estavam chamando (próclise no auxiliar)

    João deve-lhe fazer o favor | Eles estavam-te chamando (ênclise no verbo auxiliar)

    João deve lhe fazer o favor | Eles estavam te chamando (próclise no verbo principal)

    João deve fazer-lhe o favor | Eles estavam chamando-te (ênclise no verbo principal)

    > Diante de fator atrativo, não se aceita a ênclise do verbo auxiliar!

    João não lhe deve fazer o favor | Eles não te estavam chamando (próclise no auxiliar)

    João não deve lhe fazer o favor | Eles não estavam te chamando (próclise no verbo principal)

    João não deve fazer-lhe o favor | Eles não estavam chamando-te (ênclise no verbo principal)

  • Como é atrativo de próclise por ser um pronome interrogativo. Deve-se ficar assim: Como a julgariam (...)

  • Ao meu ver , diversos comentários errados. A assertiva B está errada pois 'como' é uma oração subordinativa conformativa, assim necessita-se colocar o pronome relativo próxima por ser atrativa.

  • VERBOS NO FUTURO DO PRETÉRITO ( TERMINANDO EM 'RIA') USA MESOCLISE

  • Item B correto.

    O "Como" nessa frase tem fator de atração, mas não sei qual função desse termo na frase.

    Já escreveram aqui Conjunção adverbial, Pronome interrogativo, conjunção conformativa, e ainda afirmaram que o "como" não influencia em nada, já que seria o verbo no futuro que exigiria mesóclise.

    A Frase diz genericamente: "Como" isso "se" aquilo. Essa partícula "Se" sendo uma conjunção condicional implicaria dizer que esse "como" é um pronome interrogativo mesmo?

  • julgá-la-iam.

    Formas verbais acompanhadas de pronome oblíquo átono podem ou não ser acentuadas. Acentuam-se apenas as formas verbais oxítonas terminadas em a, e, o, acompanhadas das variantes dos pronomes oblíquos átonos lo, la, los, las, no, na, nos, nas. ...

    #posseem2021

  • A língua portuguesa é uma das mais estranha da fase da terra kkkk

    C

    Ia-me esquecendo das prescrições sobre minha nova dieta.

  • RESPOSTA: B

    A)Eu não me calarei diante dessas injustiças

    palavras negativas atraem;

    B)Como julgariam-na se soubessem da sua fuga da dieta

    Como é uma conjunção subordinada adverbial, ela atrai o pronome causando uma próclise ao verbo julgariam.O certo seria : Como a julgariam...

    EXPLICAÇÃO DA C E D.

    o pronome pode vir antes, depois ou no meio* da locução verbal. Porém, se houver palavra

    atrativa, o pronome não pode estar no meio com hífen, pois isso indicaria que estaria em ênclise

    com o verbo auxiliar, quando, na verdade, ele só pode estar no meio por estar em próclise ao verbo

    principal.

    Não entendeu? Grave que nas locuções, se o pronome vier no meio, não pode ter hífen.

    Vamos elucidar essa regra com alguns exemplos:

    Ex: Eu lhe estou emprestando dinheiro.

    ✓ Ex: Eu estou lhe emprestando dinheiro.

    ✓ Ex: Eu estou-lhe emprestando dinheiro. NESSES EXEMPLOS NÃO HÁ PALAVRA ATRATIVA

    ✓ Ex: Eu estou emprestando-lhe dinheiro.

    ✓ Ex: Eu não lhe estou emprestando dinheiro. (o pronome está proclítico a “estou, verbo

    auxiliar”)

    ✓ Ex: Eu não estou emprestando-lhe dinheiro. (o pronome está enclítico a “emprestando”,

    verbo principal)

     Ex: Eu não estou-lhe emprestando dinheiro. (Errado porque o pronome, com hífen, estaria

    em ênclise com palavra atrativa obrigando próclise)

    FONTE: ESTRATÉGIA CONCURSOS.