SóProvas


ID
4891063
Banca
IDECAN
Órgão
CRN - 8ª Região (PR)
Ano
2015
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Você já rebateu um absurdo hoje?


Os tempos de crise são um terreno fértil para os discursos de ódio e apelos autoritários.

Confrontá‐los no dia a dia é uma forma de evitar que se tornem, um dia, projetos reais.


    Tenho a péssima mania de responder absurdos com silêncio. Quanto maior o absurdo, menor a vontade de falar. Percebi a gravidade dessa relação porque tenho andado muito quieto ultimamente. A vida em rede me acostumou mal: habituado a conversar com quem já tem uma predisposição em ouvir, aprendi a despejar na internet, não sem certa arrogância, tudo o que tinha vontade de dizer e não disse quando o taxista falou que a cidade só teria jeito quando pegassem o bairro pobre, jogassem gasolina e botassem fogo. Ou quando a socialite levantou a taça de espumante e, com um olho na piscina e outro na bolsa Louis Vuitton, se disse assustada com a calamidade em que vivemos no Brasil.

    Tudo começou, acho, na adolescência, quando a vizinha gente‐boa levou uma tarde a me desejar boa sorte na minha viagem a São Paulo, onde dali em diante eu passaria a morar e estudar. Atenciosamente, ela me deu um roteiro de passeios, dicas, culturas e cuidados na metrópole. Ao fim da conversa, soltou um “só tome cuidado porque é uma cidade infestada por imigrantes, e eles estão acabando com tudo”. Ainda hoje me questiono por que não a rebati, ali, na lata. Foi porque só tinha 19 anos? Por não querer ser indelicado? Para não azedar a boa vizinhança? Mas de que vale ter vizinhos assim, que só te respeitam porque te veem como um igual?

    Na conversa, ela me pedia para reparar como os imigrantes de vários sotaques se espalhavam em nossa cidade do interior trazendo sujeira e insegurança. “Em São Paulo é ainda pior”, reforçava. Lembrei que, naquela época, uma série de assaltos a repúblicas estudantis das redondezas era noticiada pelos jornais locais. Pouco depois, a quadrilha foi identificada, e qual não foi o choque quando descobrimos que um vizinho nosso, branco e de classe média, estava envolvido. Na mesma época, acordamos certa manhã de sonos intranquilos com a Polícia Federal à porta do prédio. Os agentes estavam em busca de um morador, querido por todos, que integrava um suposto esquema ilegal de fabricação e comércio de couro. A realidade desmentia a tese daquela senhora que se gabava de ter livros por todo canto de casa, embora não tivesse olhos para entender o mundo para além da própria janela. “A insegurança é sempre o outro”, concluía comigo mesmo, sem jamais dizer nada.

    À medida que me adaptava à vida em São Paulo, e aos círculos menos inóspitos da vida universitária, me acostumei a falar em guetos. Neles, enquanto tentávamos entender a lógica da discriminação em um país ainda marcadamente desigual, dividíamos nossas angústias como numa roda de reabilitados. Falávamos da tia racista que achava um absurdo o namoro do artista mulato com a atriz branca. “Preconceito contra eles mesmos”, repetia a parente, para a concordância bovina de todos à mesa.

    A sequência era conhecida. “Bons eram os tempos dos militares; tomávamos cascudos, mas andávamos na linha”. “O Brasil é um país de belezas naturais e um povo criado na malandragem.” “Político é tudo igual.” “Virou gay porque faltou chinelada.” “Virou lésbica porque não encontrou o cara certo.” “Ninguém mandou usar saia.” E etc, etc. Nos círculos sociais, lidamos o tempo todo com autodidatas especializados em política e sociedade.

    Toda vez que essas conversas reaparecem, é como se eu tivesse a chance de rebater aquela vizinha, já sem as amarras da imaturidade. Dias atrás ela reapareceu em uma conversa num Café decorado e com ar‐condicionado. Vestia terno e tinha certeza que o calor tropical inibia a vocação do brasileiro ao trabalho. Exatamente à sua frente, separado apenas por um vidro blindado, um pedreiro se derretia para erguer um muro de tijolo sob o sol a pino. Pensei em apresentar um para o outro, mas, como sempre, calei.

     “Deixem falar. São só ignorantes”, dizem os amigos, enquanto guardam os cartuchos para os grandes debates com professores, autoridades públicas, grandes corporações etc.

    A verdade é que nessas manifestações gratuitas de ingenuidade/ignorância não está o exercício saudável do debate. Está a fórmula autoritária de falar e ser ouvido e, se rebatido, correr para a linha segura do tatame com uma velha muleta: “É só a minha opinião, você precisa respeitar”. Confundimos, então, silêncio com respeito, e determinamos arbitrariamente quem merece e quem não merece ser contrariado. Aquela lição canhestra herdada da ditadura, a de que política não se discute, ainda faz estragos: dizer o que se pensa se transformou em uma espécie de pregação a convertidos. Por aqui, debate, conflito e contraponto não sensibilizam consensos, mas melindres. Por isso, e para evitá‐los, calamos.

    Tempos atrás, quando todos pareciam satisfeitos em seus quadrados, essas pontas de fagulha pareciam inofensivas. Agora os tempos mudaram. Em parte devido à conjuntura mundial, em parte devido a apostas equivocadas dos governos locais, em parte devido à insensibilidade para perceber que os modelos se esgotaram, o cobertor se encurtou, as saídas se estreitaram, a crise se avizinhou, o pirão acabou e a primeira reação nesses guetos é garantir primeiro a sua farinha.

(Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/voce‐ja‐rebateu‐um‐absurdo‐hoje‐3639.html Acesso em: 09.03.2015. Adaptado.)

Assinale a alternativa em que o termo destacado NÃO foi utilizado com um sentido diferente do usual, ou seja, foi utilizado com o sentido comum do dicionário.

Alternativas
Comentários
  • GAB C

    “Foi porque só tinha 19 anos? Por não querer ser indelicado? Para não azedar a boa vizinhança?” (2º§) Uso conotativo

    “... enquanto guardam os cartuchos para os grandes debates com professores, autoridades públicas, grandes corporações etc.” (7º§) Uso conotativo

    “Vestia terno e tinha certeza que o calor tropical inibia a vocação do brasileiro ao trabalho.” (6º§) Uso denotativo

    “Os tempos de crise são um terreno fértil para os discursos de ódio e apelos autoritários.” (subtítulo do texto) Uso conotativo

    A grande "pegadinha" da questão é no seu enunciado, que induz o concurseiro ao erro , ja que ela pede "NÃO foi utilizado com um sentido diferente do usual" como o "NÃO" está em maiusculo , faz com que procuremos o uso conotativo, quando na verdade a questao quer o uso denotativo

  • DENOTATIVO ---- DICIONÁRIO

  • Denotação: 

    Uma palavra é usada no sentido denotativo quando apresenta seu significado original independentemente do contexto em que aparece.

     Conotação: 

    Uma palavra é usada no sentido conotativo quando apresenta diferentes significados, sujeitos a diferentes interpretações, dependendo do contexto em que esteja inserida, referindo-se a sentidos, associações e ideias que vão além do sentido original da palavra, ampliando sua significação mediante a circunstância em que a mesma é utilizada, assumindo um sentido figurado e simbólico.

    * Dica: Procure associar Denotação com Dicionário: trata-se de definição literal, quando o termo é utilizado com o sentido que consta no dicionário.

  • Denotativo >>>> sentido do Dicionário

    Conotativo >>>> ''Conto de fadas'', sentido figurado

    Gab letra C

  • DENOTATIVO = D de Deus -> Só Verdades

    CONOTATIVO = C de Capeta -> Só mentiras

  • A banca se enrola toda pra dizer sentido 'literal' da palavra.

  • Projeto PC CE
  • A questão é sobre e quer que marquemos a alternativa em que o termo destacado NÃO foi utilizado com um sentido diferente do usual, ou seja, foi utilizado com o sentido comum do dicionário. Vejamos: 

     .

    Linguagem figurada ou conotação: sentido simbólico das palavras, não literal.

    Linguagem literal ou denotação: sentido literal, básico, usual, real.

    Denotativa = De verdade

    Conotativa = Conto de fadas

     .

    A) “Foi porque só tinha 19 anos? Por não querer ser indelicado? Para não azedar a boa vizinhança?” (2º§)

    Errado. Aqui a palavra "azedar" está sendo usada no sentido figurado, conotativo. "Azedar" significa "tornar azedo; acidificar; estragar", mas aqui está sendo usada no sentido de "contrariar, aborrecer, irritar".

     .

    B) “... enquanto guardam os cartuchos para os grandes debates com professores, autoridades públicas, grandes corporações etc.” (7º§)

    Errado. Aqui a palavra "cartuchos" está sendo usada no sentido figurado, conotativo. Um dos significados de "cartucho" é "recipiente descartável que contém tinta de impressora", mas aqui está sendo usada no sentido de "ideias".

     .

    C) “Vestia terno e tinha certeza que o calor tropical inibia a vocação do brasileiro ao trabalho.” (6º§)

    Certo. Aqui a palavra "vocação" está sendo usada no sentido literal, denotativo. "Vocação" aqui está no sentido de "chamado".

     .

    D) “Os tempos de crise são um terreno fértil para os discursos de ódio e apelos autoritários.” (subtítulo do texto)

    Errado. Aqui a palavra "terreno fértil" está sendo usada no sentido figurado, conotativo. "Terreno fértil" significa "terreno fecundo, produtivo", mas aqui está sendo usado no sentido de "propícios".

     .

    Gabarito: Letra C

  • Apenas tem que saber a diferença entre denotação e conotação.