SóProvas


ID
4942774
Banca
FUNCAB
Órgão
DETRAN-SE
Ano
2010
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Lei seca no trânsito


    Gosto de beber, e confesso sem o menor sentimento de culpa. Álcool, de vez em quando, em quantidade pequena, dá prazer sem fazer mal à maioria das pessoas. Aos sábados e domingos, quando estou de folga, tomo uma cachaça antes do almoço, hábito adquirido com os carcereiros da antiga Casa de Detenção. Difícil é escolher a marca, o Brasil produz variedade incrível. Tomo uma, ocasionalmente duas, jamais a terceira. Essa é a vantagem em relação às bebidas adocicadas que você bebe feito refresco, sem se dar conta das consequências. Cachaça impõe respeito, o usuário sabe com quem está lidando: exagerou, é vexame na certa.

    Cerveja, tomo de vez em quando. O primeiro gole é um bálsamo para o espírito; no calor, depois de um dia de trabalho e horas no trânsito, transporta o cidadão do inferno para o paraíso. O gole seguinte já não é igual, infelizmente. A segunda latinha decepciona, deixa até um resíduo amargo; a terceira encharca. Uísque e vodca, só tenho em casa para oferecer às visitas.

    De vinho eu gosto, mas tomo pouco, porque pesa no estômago. Além disso, meu paladar primitivo não permite reconhecer notas de baunilha ou sabores trufados; não tenho ideia do que seja uma trava sutil de tanino, nem o aroma de cassis pisado, nem o frescor de framboesas do campo. Em meu embotamento olfato-gustativo, faço coro com os que admitem apenas três comentários diante de um copo de vinho: é bom, é ruim, e bebe e não enche o saco.

    Feita essa premissa, quero deixar claro ser a favor da chamada lei seca no trânsito.

    Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores, o equilíbrio e a percepção espacial de objetos em movimento e sair por aí pilotando uma máquina na qual uma pequena desatenção pode trazer consequências fúnebres?

    Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe, talvez possa dizer que meia garrafa de vinho, três chopes ou uísques não interferem na sua habilidade ao volante.

    Tudo bem: vamos admitir que, no seu caso, seja verdade, que você tenha maior resistência aos efeitos neurológicos e comportamentais do álcool e que seria aprovado em qualquer teste de resposta motora.

    Imagino, entretanto, que você tenha ideia da diversidade existente entre os seres humanos. Quantas mulheres e quantos homens cada um de nós conhece para os quais uma dose basta para transtorná-los? 

    Quantos, depois de duas cervejas, choram, abraçam os companheiros de mesa e fazem declarações de amizade inquebrantável? Está certo permitir que esses, fisiologicamente mais sensíveis à ação do álcool, saiam por aí colocando em perigo a vida alheia?

    Como seria a lei, então? Deveria avaliar as aptidões metabólicas e os reflexos de cada um para selecionar quem estaria apto a dirigir alcoolizado? O DETRAN colocaria um adesivo em cada carro estabelecendo os limites de consumo de álcool para aquele motorista? Ou viria carimbado na carteira de habilitação?

    Talvez você possa estar de acordo com a argumentação dos advogados que defendem os interesses dos proprietários de bares e casas noturnas: “A nova lei atenta contra a liberdade individual”.

    Aí começo a desconfiar de sua perspicácia. Restrições à liberdade de beber num país que vende a dose de pinga a R$0,50? Há escassez de botequins nas cidades brasileiras, por acaso? Existe sociedade mais complacente com o abuso de álcool do que a nossa?

    Mas pode ser que você tenha preocupações sociais com a queda de movimento nos bares e com o desemprego no setor.

    A julgar por essa lógica, vou mais longe. Como as estatísticas dos hospitais públicos têm demonstrado nos últimos fins de semana, poderá haver desemprego também entre motoristas de ambulâncias, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, agentes funerários, operários que fabricam cadeiras de rodas, sondas urinárias e outros dispositivos para deficientes físicos.

    No ano passado, em nosso país, perderam a vida em acidentes de trânsito 17 mil pessoas. Ainda que apenas uma dessas mortes fosse evitada pela proibição de beber e dirigir, haveria justificativa plena para a criação da lei agora posta em prática.

    Não é função do Estado proteger o cidadão contra o mal que ele faz a si mesmo. Quer beber até cair na sarjeta? Pode. Quer se jogar pela janela? Quem vai impedir?

    Mas é dever inalienável do Estado protegê-lo contra o mal que terceiros possam causar a ele.

Dráuzio Varela, Folha de São Paulo, 19 de julho de 2008.

Nos trechos abaixo, as duas ocorrências do verbo ser encontram-se flexionadas, respectivamente, nos modos:


Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores...”

“Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe...” 

Alternativas
Comentários
  • Gabarito: Letra D

    Imperativo e Presente do Subjuntivo.

    Qualquer erro é só avisar ;)

  • Sejamos também poderia estar no presente do subjuntivo:

    EU seja

    TU sejas

    ELE seja

    NÓS sejamos

    VÓS sejais

    ELES sejam

    Uma maneira fácil de saber se o verbo esta no presente subjuntivo é colocar o advérbio de dúvida "talvez" antes do verbo.

    ex: talvez sejamos felizes no dia de amanhã.

    (dica do terror)

    estudar é o caminho.

  • Presente do Subjuntivo = Obrigatório o uso de um Conector (caso, se, que...) Na frase abaixo o conector é o " que"

    “Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe...”

    Presente do Subjuntivo:

    Que eu seja

    Que tu sejas

    Que ele seja

    Que nós sejamos

    Que vós sejais

    Que eles sejam

    Imperativo Afirmativo = Todas as pessoas vem do Presente do Subjuntivo, exceto " tu" e "vós" quem vem do Presente do Indicativo. Além disso, não existe a 1º pessoa do singular.

  • Assertiva E

    Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores...” = imperativo

    “Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe...”subjuntivo.

  • Uma dica para conjugar subjetivo é usar "que".

    Que tu sejas

    Que ele seja

  • "Sejamos sensatos" - o autor está exprimindo uma ordem, desejo → Imperativo.

    "Ainda que você não seja" - O QUE está precedendo o verbo "ser" → presente do Subjuntivo

    Subjuntivo:

    Presente - QUE eu fale

    Pretérito imperfeito - SE eu falasse

    Futuro do presente - QUANDO eu falar

    gab. D

    Erros, podem me corrigir!

  • Indicativo- expressa certeza

    Subjuntivo- Duvida/ hipótese

    Imperativo- Ordem