SóProvas


ID
5567659
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Belém - PA
Ano
2021
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

DOCE

    Lembrasse antes quanto tempo gastaria na beira do fogão mexendo o doce de abóbora e Maria talvez nem tivesse começado. Mas não é assim que funciona, a coisa vem de trás pra frente: primeiro o gosto no fundo da lembrança, na garganta, daí a saliva na língua. Depois, o cheiro de algo que nem recordava parece que está aqui, dentro das narinas. Os ingredientes, todos comprados, a panela na mão. Só na hora de mexer o doce é que a gente lembra, com esse misto de cansaço e tristeza, que o doce é feito de mexer o doce. É feito do braço girando, girando, o outro braço solto escorado na anca, o peso do corpo passando da perna de cá pra de lá.

    O doce já começado é doce inteiro na imaginação, não tem volta. E Maria nunca foi de voltar atrás, mesmo com o que era bom só na primeira mordida e depois deixava um retrogosto amargo – na boca ou no jeito de olhar. Maria que nem puxa-puxa, presa às escolhas e caminhos e ao que por vezes não foi tão escolha quanto foi acaso.

    Bem que às vezes queria ser pássaro solto, escolher caminhos. A cozinha fica pequena da falta que voar livre faz, as paredes suam. Tudo o que é sonho vai evaporando do seu corpo, a pele fica grossa, dura. O açúcar carameliza angústias. E Maria pensa se não seria melhor ter virado cambalhota por sobre um ou outro acontecimento, em vez de vivê-los todinhos.

    O marido mesmo. Ela cansava de topar com ele encostado no sofá, vendo TV. Ia de um canal para o outro, como se não estivesse ali. Queria que estivesse. Que contasse uma bobagem que aconteceu no trabalho ou na rua, que atentasse ao gosto novo no doce que ela fez, “cê colocou coco?”, “que cheiro diferente, que foi que cê botou aí?”, qualquer coisa. Qualquer coisa que fizesse com que os dois parecessem vivos, que parecessem ligados, nem que pelo diferente do hoje no doce sempre igual.

    Tomasse uma atitude agora, talvez a coisa toda desembrulhasse diferente. Ela botaria uma roupa bonita e dançaria pela casa, pintaria a cara toda faceira e vibrante e mostraria para ele que ainda era mulher, poxa vida, ainda sou bem mulher! [...] 

    Também podia ir embora, pegar as meninas e as próprias coisas e voltar para a casa da mãe. Ou podia queimar esse doce, derrubar panela, fazer escândalo. Pedir tenência, uma mudança, alguma coisa que mostrasse que ainda estava viva, viva! Vibrante como esse corde-laranja borbulhando na panela. [...]

PRETTI, Thays. A mulher que ri. São Paulo: Editora Patuá, 2019.

Em “[...] poxa vida, ainda sou bem mulher!”, o item em destaque

Alternativas
Comentários
  • adverbio de intensidade

  • É um adjetivo. Advérbio se relaciona com uma advérbio, adjetivo ou verbo. No caso o bem está relacionado c mulher, então seria um adjetivo.
  • Gabarito na alternativa C

    Solicita-se indicação da assertiva correta:

    “[...] poxa vida, ainda sou bem mulher!”

    A) indica o antônimo de “mal”.

    Incorreta. Na acepção em tela, o termo "bem" está empregado como intensificador, indicando algo em elevado grau, não sendo o termo "mal" (ruim) sua forma antônima.

    B) poderia ser substituído pelo termo “boa” sem prejuízo semântico à frase.

    Incorreta. O termo "boa" é adjetivo que define algo de qualidades admiráveis, não encontrando equivalência semântica com a forma destacada.

    C) atua como intensificador.

    Correta. O termo é advérbio de intensidade que dá circunstância ao termo de função adjetiva "mulher" e ao verbo copulativo "sou". Importante frisar que o termo "mulher", embora normalmente substantivo, atua na passagem como adjetivo, sintaticamente um predicativo do sujeito inserto por verbo de ligação.

    D) é um adjetivo que caracteriza o substantivo “mulher”.

    Incorreta. Consoante comentário anterior, os termos são respectivamente advérbio e adjetivo.

    E) é restrito à variedade padrão da língua.

    Incorreta. O uso do termo "bem", denotativo de intensidade, é vasto e de larga aplicação na linguagem informal.

  • GAB-C

    atua como intensificador.

    AINDA SOU BEM MULHER....INTENSIFICANDO (MULHER).

    CARRO BEM VELHO... NÃO É UM CARRO DE 3 ANOS É UM BEMMM VELHO MESMO.

    LUGAR BEM LONGE.... NÃO É UM LUGAR DE 4 DIAS DE VIAGEM É BEM LONGE MESMO....

    MENINA BEM BONITA. ... NÃO É UMA MENINA QUALQUER É UMA BEM BONITA, TOP PARAR O TRÂNSITO.

    NÃO USEM OS CORREIOS, USEM OUTRAS TRANSPORTADORAS.!!!

  • BEM não possui classificação - é uma palavra DENOTATIVA.

    Advérbio não se relaciona com substantivo, senão com ADJETIVO, VERBO e outro ADVÉRBIO.

  • a questão possui duplo gabarito?

    1° sim, tá intensificando "mulher" que é um substantivo

    2° é um adjetivo, pois, advérbio é inimigo do substantivo.

  • todos os bizu relacionado a essa questão relaciona bem x mal bom x mau

    o quê não está nos conformes que invalidou a alternativa "A".

  • Em “[...] poxa vida, ainda sou bem mulher!”, o item em destaque

    5º§ Tomasse uma atitude agora, talvez a coisa toda desembrulhasse diferente. Ela botaria uma roupa bonita e dançaria pela casa, pintaria a cara toda faceira e vibrante e mostraria para ele que ainda era mulher, poxa vida, ainda sou bem mulher! [...] 

    indica o antônimo de “mal”.

    Gente, vamos perceber quando a questão quer que voltemos ao texto; aqui nem precisava, mas é bom treinar assim para quando vier tempos de tormenta rsrs; nem uma frase, oração, trecho de texto sai do nada. Tirando as cobranças gramaticais pura, isto é, que dá para resolver sem ir ao texto, o contexto sempre tem de ser baseado na questão em si. Repito que língua portuguesa não é estanque, sempre temos de nos ater ao contexto em particular de cada questão.

    Aqui, é o antônimo bem? Não! O contexto está falando, olha o contexto novamente, que o advérbio está intensificando o adjetivo mulher; sim, coleguinhas, mulher está como adjetivo na passagem destacada. Morfologicamente e essa palavra é importante – Morfologia e sintaxe são irmãs gêmeas, mas não são completamente iguais –, morfologicamente é um substantivo podendo ser de outra classe a depender da frase.

    poderia ser substituído pelo termo “boa” sem prejuízo semântico à frase.

    Até é pode ser classificado com um adjetivo, mas tem a ver com o contexto? “eu sou uma boa mulher?” Não, né... Entenda o contexto, meus amigos(as)

    ►atua como intensificador.

    Como dito, advérbio intensificando o adjetivo, nesta frase. “Eu sou muito mulher”.

    é um adjetivo que caracteriza o substantivo “mulher”.

    Não, na oração indagada mulher é adjetivo. Mas sim, advérbios não modificam substantivos. Só modificam: verbos, adjetivos e outros advérbios.

    ►é restrito à variedade padrão da língua. (MACONHA!)

    Não é variedade, extérmi!

    “A Língua não nasce de frases soltas”

  • é necessário voltar ao texto. a banca induz a marcação da letra A.

  • Minha contribuição.

    Advérbios: modificam o verbo, reforçam o adjetivo ou o advérbio e emitem opinião sobre a oração inteira.

    Ex.: Você compreendeu-me mal. (modo)

    Ex.: Ficava completamente imóvel. (intensidade)

    Ex.: Passei a noite bem mal. (intensidade)

    Ex.: Infelizmente, nem o médico lhes podia valer. (de oração)

    Abraço!!!

  • SOU BEM MACHO

    SOU BEM MULHER

    TEM VALOR INTESIFICADOR