SóProvas


ID
637672
Banca
CONSULPLAN
Órgão
Prefeitura de Congonhas - MG
Ano
2010
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

É tempo de pós-amor

   Cansei de amor! Quantos filmes, entrevistas, artigos, livros sobre amor cruzaram seu caminho ultimamente? Em uma semana, assisti a um vídeo, vi um filme, li meio livro e participei de um debate na televisão. Tudo sobre amor. E ouvi as pessoas – provavelmente também eu própria – dizerem coisas pertinentes e bem ditas que, de tão pertinentes e repetidas, já se tornaram chavões comportamentais, e parecem fichas de computador dissecadas de qualquer verdade emocional. E de repente está me dando uma urticária na alma, um desconforto interno que em tudo se assemelha à indigestão.

    Estamos fazendo com o amor o que já fizemos com o sexo. Na década passada parecia que tínhamos reinventado o sexo. Não se pensava, não se falava, não se praticava outro assunto. Toda a nossa energia pensante, todo o nosso esforço vital pareciam concentrados na imensa cama que erguíamos como única justificativa da existência humana. Transformamos o sexo em verdade. Adoramos um novo bezerro de ouro.

    Mas o ouro dos bezerros modernos é de liga baixa, que logo se consome na voracidade da mass media. O sexo não nos deu tudo o que dele esperávamos, porque dele esperávamos tudo. E logo a sociedade começou a olhar em volta, à procura de um outro objeto de adoração. Destronado o sexo, partiu-se para a grande festa de coroação do amor.

  Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos, analisando, procurando, destrinchando. E desgastando. Antes, quando eu pensava numa conversa séria, direita, com a pessoa que se ama, sabia a que me referia. Mas agora, quando ouço dizer que “o diálogo é fundamental para a manutenção dos espaços”, não sei o que isso quer dizer, ou melhor, sei que isso não quer dizer mais nada. Antes, quando eu pensava ou dizia que amor é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto. Mas agora, quando eu ouço repetido de norte a sul, como num gigantesco eco, que “a vida sem amor não tem sentido”, fico com a impressão de estar ouvindo um slogan publicitário e me retraio porque sei que estão querendo me impor um produto.

    A vida sem amor pode fazer sentido, e muito. É bom que a gente recomece a dizer isso. Mesmo porque há milhões de pessoas sem amor, que viveriam bem mais felizes se de repente a voz geral não lhes buzinasse nos ouvidos que isso é impossível. O mundo só andou geometricamente aos pares na Arca de Noé. Fora disso, anda emparelhado quem pode, quando pode. E o resto espera uma chance, sem nem por isso viver na escuridão.

   Antes que se frustrem as expectativas, como aconteceu com o sexo, seria prudente descarregar o amor, tirar-lhe dos ombros a responsabilidade. Ele não pode nos dar tudo. Nada pode nos dar tudo. Porque o tudo não existe. O que existe são parcelas, que, eternamente somadas e subtraídas, multiplicadas e divididas, nos aproximam e afastam do tudo. E a matemática dessas parcelas pode ser surpreendente: quando, como está acontecendo agora, tentamos agrupá-las todas em cima de uma única parcela – o amor −, elas não se somam, pelo contrário, se fracionam, causando o esfacelamento da parcela-suporte.

     Amor criativo é ótimo, dizem todos. E é verdade. Mas melhor ainda é pegar uma parte da criatividade que está concentrada no amor, e jogá-la na vida. Solta, ela terá possibilidades de contaminar o cotidiano, permear a vida toda e voltar a abastecer o amor, sem deixar-se absorver e esgotar por ele. Dedicar-se à relação é importante, dizem todos. E é verdade. Mas qualquer um de nós tem inúmeras relações, de amizade, vizinhança, sociais, e anda me parecendo que concentrar toda a dedicação na relação amorosa pode custar o empobrecimento das outras.

   Sim, o amor é ótimo. Porém acho que vai ficar muito melhor quando sair do foco dos refletores e passar a ser vivido com mais naturalidade. Quando readquirirmos a noção de que não é mais vital do que comer e banhar o corpo em água fria nem mais tranquilizador do que ter amigos e estar de bem com a própria cara. Quando aceitarmos que não é o sal da terra, simplesmente porque a terra é seu próprio sal, e é ela que dá sabor ao amor.

(Colasanti, Marina, 1937 – Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996) 

“... se tornaram chavões comportamentais...” (1º§). O termo destacado anteriormente tem classificação diversa do termo destacado em:

Alternativas
Comentários
  • "...que viveriam bem mais felizes se de repente a voz geral..."CONJUNÇÃO SUBORDINATIVA CONDICIONAL. As outras: a)Pronome -índice de indeterminação do sujeito; b)Pronome reflexivo; d)Pronome apassivador; e) Pronome reflexivo.
  • A frase da questão apresenta um pronome apassivador.

    As opções de resposta, por sua vez, assim são classificadas:

    a) pronome - índice de indeterminação do sujeito

    b) pronome apassivador
    A pessoa que se ama
    Amar = VTD
    Transformando para a voz passiva:
    "A pessoa que é amada"

    c) conjunção subordinativa
    d) pronome apassivador
    e) 
    pronome reflexivo

     

  • C???
    Na frase é pronome reflexivo: Já se tornaram chavões comportamentais. Tornaram a si.
    Na C é condicional: Viveriam (...) se/caso de repente a voz geral...
    Alguém concorda ou descorda?
  • Olha, colega. Eu marquei C pelos mesmos motivos que você. Se estamos certos, não tenho certeza.
  • O "se" nas alternativas A, B, D e E são pronomes. Já o "se" da alternativa C é uma conjunção, como a questão pede a classificação diversa, a letra C é a correta.

    Lembrem-se que o "se" é dividido em duas grandes "categorias": a de conjunção e a de pronome.


    Como conjunção, poderá ser:
    a) Integrante;
    b) Condicional
    c) Condicional
    d) Temporal


    Como pronome, poderá ser:
    a) Reflexivo;
    b) Apassivador;
    c) Índice de indeterminação do sujeito;
    d) Expletiva
  • Concordo com o comentário do colega Toni Duarte a questão é quase uma pegadinha  quando ele pede a classificação diversa  ele quer a alternativa que se diferencia, ou seja, a que não se classifica como pronome. Não é só ter conhecimento, mas também estarmos atentos :D
  • Kécia, eu concordo com vc, mas você tem que analisar que o enunciado pega os desatentos (nos quais eu me incluí) ao dizer: "O termo destacado anteriormente tem classificação diversa do termo destacado em"

    Essa eu não erro mais! Bons estudos ;)

    Por isso, "C"