SóProvas


ID
95923
Banca
FCC
Órgão
DPE-SP
Ano
2010
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Administração da linguagem

Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
espírito público incomum.

Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baús da
velha retórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
para especialistas.

Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
a ética rigorosa do escritor e a ética irrepreensível do
administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
da honestidade e do respeito para com o outro.

(Tarcísio Viegas, inédito)

Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:

Alternativas
Comentários
  • Desculpem-me pela ignorância, mas o que significa esse "invidem" !?:(
  • b) Isso caberá a eles; c)Invide: promover / reunir,Cujo valor; d) ainda mais se orgullhar deste autor: o "mesmo" deve ser evitado como elemento de coesão; e) frase obscura, sem sentido.

  • Muito leitor ? Ou muitos leitores ?

  • Comentário: A redação clara e correta é encontrada na assertiva A. Sendo assim, vamos analisar os erros das demais opções.

     

    B) Resposta incorreta. No período, temos o sujeito oracional promover pesquisas. Por essa razão, o verbo caber deve figurar na terceira pessoa do singular: Aos leitores curiosos caberá promover pesquisas (..).

     

    C) Resposta incorreta. O verbo envidar deve ser grafado com a vogal i: invidar, cuja acepção é aplicar com dedicação. Além disso, vimos que o pronome relativo cujo não admite artigo, seja antes, seja depois. Logo, o trecho cujo o valor é inestimável está incorreto.

     

    D) Resposta incorreta. A construção não está clara por apresentar ambiguidade: notem que o vocábulo nele (contração da preposição em com o pronome ele) pode referir-se tanto a relatório quanto a Graciliano.

     

    E) Resposta incorreta. Construído com a forma pronominal (admirar-se), o verbo admirar é transitivo indireto, regendo o emprego da preposição com.

    Logo, o trecho deveria escrito da seguinte forma: Sendo pouco comum admirar-se com um relatório de prefeito, verão os leitores de Graciliano que não se trata aqui deste caso, muito ao contrário.

     

    Fonte: http://gramaticadoprofessordaniel.blogspot.com.br/2012/02/simulado-fcc-lingua-portuguesa.html