SóProvas


ID
1790629
Banca
FCC
Órgão
DPE-RR
Ano
2015
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

      Por volta de 1968, impressionado com a quantidade de bois que Guimarães Rosa conduzia do pasto ao sonho, julguei que o bom mineiro não ficaria chateado comigo se usasse um deles num poema cabuloso que estava precisando de um boi, só um boi.

      Mas por que diabos um poema panfletário de um cara de vinte anos de idade, que morava num bairro inteiramente urbanizado, iria precisar de um boi? Não podia então ter pensado naqueles bois que puxavam as grandes carroças de lixo que chegara a ver em sua infância? O fato é que na época eu estava lendo toda a obra publicada de Guimarães Rosa, e isso influiu direto na minha escolha. Tudo bem, mas onde o boi ia entrar no poema? Digo mal; um bom poeta é de fato capaz de colocar o que bem entenda dentro dos seus versos. Mas você disse que era um poema panfletário; o que é que um boi pode fazer num poema panfletário?

      Vamos, confesse. Confesso. Eu queria um boi perdido no asfalto; sei que era exatamente isso o que eu queria; queria que a minha namorada visse que eu seria capaz de pegar um boi de Guimarães Rosa e desfilar sua solidão bovina num mundo completamente estranho para ele, sangrando a língua sem encontrar senão o chão duro e escaldante, perplexo diante dos homens de cabeça baixa, desviando-se dos bêbados e dos carros, sem saber muito bem onde ele entrava nessa história toda de opressores e oprimidos; no fundo, dentro do meu egoísmo libertador, eu queria um boi poema concreto no asfalto, para que minha impotência diante dos donos do poder se configurasse no berro imenso desse boi de literatura, e o meu coração, ou minha índole, ficasse para sempre marcado por esse poderoso símbolo de resistência.

      Fez muito sucesso, entre os colegas, o meu boi no asfalto; sei até onde está o velho caderno com o velho poema. Mas não vou pegá-lo − o poema já foi reescrito várias vezes em outros poemas; e o meu boi no asfalto ainda me enche de luz, transformado em minha própria estrela.

(Adaptado de: GUERRA, Luiz, "Boi no Asfalto", Disponível em: www.recantodasletras.com.br. Acessado em: 29/10/2015) 

De acordo com o texto, o autor

Alternativas
Comentários
  • LETRA D

    "eu queria um boi poema concreto no asfalto, para que minha impotência diante dos donos do poder se configurasse no berro imenso desse boi de literatura, e o meu coração, ou minha índole, ficasse para sempre marcado por esse poderoso símbolo de resistência..."

  • Não identifico "temática  política". Mesmo constando do texto "donos do poder".  

  • Kildere Irineu. Deve ser levando em conta o contexto histórico: Brasil, 1968, Ditadura..

  • Achei que era A pois ,o mensionamento da palavra política,me levou a ficar em dúvida. ;(

  • Gabarto letra D:

     

    eu queria um boi poema concreto no asfalto, para que minha impotência diante dos donos do poder se configurasse no berro imenso desse boi de literatura, e o meu coração, ou minha índole, ficasse para sempre marcado por esse poderoso símbolo de resistência. 

  • Fiz essa prova no dia e errei, agora responde e errei de novo. É um pouco dufícil, mas vc tem que ter noção do que significa um texto panfletário.

    Qualidade de quem faz a apologia de alguma causa ou ideologia
    termo por vezes usado com conotação negativa

    "Um panfletário.

  • odeio poemas

  • Não está no texto explicitamente. Está mais para interpretação "a resposta não está no texto" do que compreensão "De acordo com o autor" . Não entendi essa questão.

  • 1968 HAVIA INTERVENCÃO MILITAR NO BRASIL.
    ALGUMAS PARTES QUE EVIDENCIAM TAL ÉPOCA :

    opressores e oprimidos
    símbolo de resistência. 

     

  • a) procurou, com a metáfora do boi, um animal rural, mostrar sua inadequação à modernidade, impotente para satisfazê-lo em seus anseios mais profundos. (...o meu coração, ou minha índole, ficasse para sempre marcado por esse poderoso símbolo de resistência.)

    b) usou, ainda que sem a autorização de Guimarães Rosa, um de seus personagens como protagonista de um poema de caráter comercial. (Contradição, o poema é de cunho político)

    c) compôs um poema para sua namorada, mostrando toda sua angústia e descontentamento em relação às injustiças praticadas contra os animais. (...queria que a minha namorada visse que eu seria capaz de pegar um boi de Guimarães Rosa e desfilar sua solidão bovina num mundo completamente estranho)

    d) queria, por mais inusitado que fosse para a temática política, incluir um boi em seu poema, que refletisse seu posicionamento alheio a toda ordem preestabelecida.(opressores e oprimidos // boi como símbolo de resistência, correta)

    e) escrevia textos de cunho político, ainda que o tom panfletário vez e outra interferisse em seus objetivos iniciais, que eram agradar a seus amigos militantes. (Extrapolação)

  • a) procurou, com a metáfora do boi, um animal rural, mostrar sua inadequação à modernidade, impotente para satisfazê-lo em seus anseios mais profundos.

    b) usou, ainda que sem a autorização de Guimarães Rosa, um de seus personagens como protagonista de um poema de caráter comercial.

    c) compôs um poema para sua namorada, mostrando toda sua angústia e descontentamento em relação às injustiças praticadas contra os animais.

    d) queria, por mais inusitado que fosse para a temática política, incluir um boi em seu poema, que refletisse seu posicionamento alheio a toda ordem preestabelecida.

    e) escrevia textos de cunho político, ainda que o tom panfletário vez e outra interferisse em seus objetivos iniciais, que eram agradar a seus amigos militantes.

    O negrito é o que está extrapolando.

  • Alternativa D

  • Só quero entrar na mesma sintonia da FCC

    Ou você entra no texto e faz parte dele ou erra a questão!

  • Texto muito difícil de interpreta-lo, não consegui fazer analogias ao texto.