SóProvas


ID
1839670
Banca
FCC
Órgão
TRT - 23ª REGIÃO (MT)
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

     Nasci na Rua Faro, a poucos metros do Bar Joia, e, muito antes de ir morar no Leblon, o Jardim Botânico foi meu quintal. Era ali, por suas aleias de areia cor de creme, que eu caminhava todas as manhãs de mãos dadas com minha avó. Entrávamos pelo portão principal e seguíamos primeiro pela aleia imponente que vai dar no chafariz. Depois, íamos passear à beira do lago, ver as vitórias-régias, subir as escadarias de pedra, observar o relógio de sol. Mas íamos, sobretudo, catar mulungu.  

      Mulungu é uma semente vermelha com a pontinha preta, bem pequena, menor do que um grão de ervilha. Tem a casca lisa, encerada, e em contraste com a pontinha preta seu vermelho é um vermelho vivo, tão vivo que parece quase estranho à natureza. É bonita. Era um verdadeiro prêmio conseguir encontrar um mulungu em meio à vegetação, descobrir de repente a casca vermelha e viva cintilando por entre as lâminas de grama ou no seio úmido de uma bromélia. Lembro bem com que alegria eu me abaixava e estendia a mão para tocar o pequeno grão, que por causa da ponta preta tinha uma aparência que a mim lembrava vagamente um olho.

      Disse isso à minha avó e ela riu, comentando que eu era como meu pai, sempre prestava atenção nos detalhes das coisas. Acho que já nessa época eu olhava em torno com olhos mínimos. Mas a grandeza das manhãs se media pela quantidade de mulungus que me restava na palma da mão na hora de ir para casa. Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes apenas dois ou três. E é curioso que nunca tenha sabido ao certo de onde eles vinham, de que árvore ou arbusto caíam aquelas sementes vermelhas. Apenas sabíamos que surgiam no chão ou por entre as folhas e sempre numa determinada região do Jardim Botânico.

      Mas eu jamais seria capaz de reconhecer uma árvore de mulungu. Um dia, procurei no dicionário e descobri que mulungu é o mesmo que corticeira e que também é conhecido pelo nome de flor-de-coral. ''Árvore regular, ornamental, da família das leguminosas, originária da Amazônia e de Mato Grosso, de flores vermelhas, dispostas em racimos multifloros, sendo as sementes do fruto do tamanho de um feijão (mentira!), e vermelhas com mácula preta (isto, sim)'', dizia.

      Mas há ainda um outro detalhe estranho – é que não me lembro de jamais ter visto uma dessas sementes lá em casa. De algum modo, depois de catadas elas desapareciam e hoje me pergunto se não era minha avó que as guardava e tornava a despejá-las nas folhagens todas as manhãs, sempre que não estávamos olhando, só para que tivéssemos o prazer de encontrá-las. O fato é que não me sobrou nenhuma e elas ganharam, talvez por isso, uma aura de magia, uma natureza impalpável. Dos mulungus, só me ficou a memória − essa memória mínima.

(Adaptado de: SEIXAS, Heloísa. Semente da Memória. Disponível em: http://heloisaseixas.com.br) 

Com respeito à pontuação, atente para as seguintes afirmações:

I. Na frase Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes apenas dois ou três (3°parágrafo), pode-se acrescentar uma vírgula imediatamente antes de apenas, mantendo-se a correção e o sentido.

II. No 4° parágrafo, os parênteses indicam juízos da escritora, que, portanto, não constam da definição encontrada no dicionário.

III. No segmento O fato é que não me sobrou nenhuma e elas ganharam, talvez por isso... (5° parágrafo), pode-se acrescentar uma vírgula imediatamente antes de "e", sem prejuízo para a correção e o sentido.

Está correto o que consta em 

Alternativas
Comentários
  • Tbm estranhei o item I como correto.

  • o item I está correto porque houve elipse da locução verbal "conseguia juntar):

     "Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes, (conseguia juntar) apenas dois ou três."

    já para mim, estranho o item III. Mas acho que a vírgula se impõe porque se trata de orações coordenadas com sujeitos diferentes, não é?

    Estou certa galera!!?


  • GABARITO LETRA D

    No item I, cabe a vírgula por haver termos implícitos: outras vezes, apenas dois ou três. = outras vezes (juntava) apenas dois ou três.

    (Explicação professora Duda Nogueira)

  • No item I, a vírgula antes de apenas constitui numa elipse do verbo juntar, por isso que se pode acrescentar uma vírgula sem prejudicar correção e sentido 


    Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes, (JUNTAVA) apenas dois ou três


    No item III, a conjunção "e" tem sentido de adversativa podendo ser substituída por: mas, porém, contudo, entretanto, no entanto, todavia e outros q não me recordo 


    O fato é que não me sobrou nenhuma, PORÉM elas ganharam, talvez por isso, uma aura de magia, uma natureza impalpável.


    Acredito que seja isso, se estiver errada, por favor, corrijam-me!

  • o "e" da III não cria um sentido de conclusão?

  • CO Mascarenhas

    Que eu saiba a regra é a seguinte: é obrigatório o emprego da vírgula do "e" aditivo quando esta conjunção ligar orações que apresentam sujeitos diferentes. Logo, não haveria faculdade nesse caso. Se fossem realmente sujeitos diferentes (o que não se vê, pois as duas orações se referem às sementes), a vírgula estaria no texto - e nesse caso a pergunta estaria pautada na retirada da vírgula, o que traria um erro por ser a mesma, no caso de sujeitos diferentes, obrigatória. No entanto, nao sei o sentido desse "e" no texto. Kkkkk
  • Não concordo com Ana Neves sobre o sentido do "e" no item III. 

    Não há relação de adversidade, pois a própria expressão "talvez por isso" confirma uma concordância entre as ideias; ou seja a autora lança a hipótese de que: não sobrou a semente e por isso as sementes ganharam magia...

    O fato é que não me sobrou nenhuma e elas ganharam, talvez por isso, uma aura de magia...

    A vírgula é possivel pois são sujeitos distintos em orações coordenadas. 

    Vejam:

    As orações coordenadas sindéticas aditivas, ainda que sejam iniciadas pela conjunção e, podem ser separadas por vírgula quando proferidas com pausa:
    Radegondes não trouxe o livro que prometera, e eu fiquei triste por isso.
    Todos olhavam para o menino que gritava, e não entendiam a razão daquele escarcéu.

     

    Fonte: Português esquematizado : gramática, interpretação de texto,
    redação oficial, redação discursiva / Agnaldo Martino

     

  • Fiquei em dúvida entre D e E, marquei a E, alguém conseguiu quanto à II? Não vi nada de não ter os significados no dicionário.

    I e III procedem, adjuntos deslocados.Tendo vírgulas.

  • Gente, por favor, alguém pode me explicar essa questão de português?

    O emprego do se em, "Espera-se que ele repense tais ações interventivas a favor do desarmamento" é o mesmo que se encontra em:
    a) Ele se olha e se vê como um imbecil.
    b) Não se destrói um projeto por problemas políticos assim.
    c) Se você compreendesse a urgência, agiria mais rápido.
    d) Com o tempo, ele se esquecerá da briga.

    O gabarito apresentado é a letra B. Mas estou em dúvida pq sequer consegui classificar o "se" na oração do enunciado. 
    Por favor, alguém pode me explicar tal questão...

  • Item II

     

    Trecho: Mas eu jamais seria capaz de reconhecer uma árvore de mulungu. Um dia, procurei no dicionário e descobri que mulungu é o mesmo que corticeira e que também é conhecido pelo nome de flor-de-coral. ''Árvore regular, ornamental, da família das leguminosas, originária da Amazônia e de Mato Grosso, de flores vermelhas, dispostas em racimos multifloros, sendo as sementes do fruto do tamanho de um feijão (mentira!), e vermelhas com mácula preta (isto, sim)'', dizia.

     

    Juarez, no trecho há o significado da palavra mulungu segundo o dicionário, conforme definição colacionada entre aspas. 

    Por outro lado, no mesmo trecho, o que está no primeiro parênteses é a discordância da Autora no que tange à afirmativa das sementes serem do tramanho de um feijão e, no segundo parênteses, a concodância a respeito da cor da semente. Ou seja, são opiniões exaradas pela Autora. 

     

    Espero ter ajudado.

  • Carolzinha P., as duas orações têm como referente "sementes".

  • No 4° parágrafo, os parênteses indicam juízos da escritora, que, portanto, não constam da definição encontrada no dicionário. 

     

    Techo do dicionário:''Árvore regular, ornamental, da família das leguminosas, originária da Amazônia e de Mato Grosso, de flores vermelhas, dispostas em racimos multifloros, sendo as sementes do fruto do tamanho de um feijão (mentira!), e vermelhas com mácula preta (isto, sim)'', dizia.

     

    Essa eu não entendi, como não consta no dicionário, aprópria autora afirmou " isto, sim".

  • Mas vem cá... deveria ter uma vírgula nesta frase: Conseguia às vezes juntar um punhado.  

    Conseguia , às vezes , juntar um punhado.

    O que vocês acham disso?  

     

  • Marcelo é isso mesmo que a questão pediu, pergutando se estaria correto também. Leia os comentários da "Ana Neves", da "Jake" e da "Mascarenhas".

  • Ana Neves pode ter razão.

    assistam essa aula. professora top top top....

    https://www.youtube.com/watch?v=KTB-zh0KPyQ

  • Item III: quando as orações tiverem sujeitos diferentes pode-se acrescentar uma vírgula sem modificar a correção e o sentido

  • Cara Ana Neves, permita-me uma colocação em relação ao seu comentário.

    .

    No item III, a conjunção "e" tem sujeitos diferentes ("O fato" e "elas"), o que torna possível a colocação da vírgula após a conjunção aditiva "e"

    .

    ----> REPAREM, a questão diz: PODE-SE acrescentar uma vírgula, o que torna o viés FACULTATIVO da regra claro e evidente.

  • I. Na frase Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes apenas dois ou três (3°parágrafo), pode-se acrescentar uma vírgula imediatamente antes de apenas, mantendo-se a correção e o sentido. 

     

     

  • Como disse o professor Alexandre Soares, em orações coordenadas aditivas com sujeitos diferentes é facultada a utilização de vírgulas! 

  • NO ITEM I, 

    Para ocultar verbo anteriormente escrito (zeugma) ou outro termo não escrito, mas subentendido (elipse) :

    Ocorre sob a forma de zeugma ou de elipse.

    a) Zeugma = ocultação do verbo já mencionado --> exemplo: "O cão come o gato; o gato, o rato." (zeugma do verbo comer)
    b) Elipse = ocultação de termo subentendido --> exemplo: "Fomos à casa de tolerância ontem." (elipse do pronome nós).

  • Errei porque pensava que na III, apesar de saber que sujeitos diferentes pode usar vírgulas, iria alterar o sentido da oração.

     

  • Gabarito letra D.

     

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  • Na opção III eu acertei porque logo no começo do texto existe uma vírgula antes e depois de "E", o examinador deu a resposta sem querer rsrs ------> Nasci na Rua Faro, a poucos metros do Bar Joia, e, muito antes de ir morar no Leblon.

     

    GABARITO D

    BONS ESTUDOS 

     

     

  • O professor Alexandre é excelente, adoro suas explicações!!!

  • Item I (CERTO) Na frase Conseguia às vezes juntar um punhado, outras vezes, apenas dois ou três (3°parágrafo), pode-se acrescentar uma vírgula imediatamente antes de apenas, mantendo-se a correção e o sentido.

    Isola a expressão "outras vezes", que traz ideia de circunstância de tempo.

     

    II (CERTO) No 4° parágrafo, os parênteses indicam juízos da escritora, que, portanto, não constam da definição encontrada no dicionário.

    Caso contrário, seria um dicionário comentado haha. É evidente que trata de um juízo de valor (opiniões) da autora.

     

    III (CERTO) No segmento O fato é que não me sobrou nenhuma, e (conjunção adititiva) elas ganharam, talvez por isso... (5° parágrafo), pode-se acrescentar uma vírgula imediatamente antes de "e", sem prejuízo para a correção e o sentido.

    E (aditivo): Sujeitos diferentes (vírgula facultativa).

                      Sujeitos iguais (vírgula proibida).

     

    GABARITO:  d) I, II e III.

  • Até agora não entendi o porquê da asseriva II ser considerava como correta! Alguém ae consegue explicar ??

  • Amigos! Diante das explicações trazidas acerca Item III, seria correto afirmar que a oração não aceitaria a vírgula se estivesse formulada da seguinte forma?  O fato é que não me sobrou nenhuma e eu perdi, talvez por isso, uma aura de magia...

     

  • II No 4° parágrafo, os parênteses indicam juízos da escritora, que, portanto, não constam da definição encontrada no dicionário.

    Como assim não constam da definição do dicionário? Realmente não entendi essa.

  • Milene C., tudo o que está entre aspas é a classificação do dicionário mesmo, mas o (mentira!) e (isto, sim) é um comentário livre, um acréscimo, que partiu da autora. Por isso a afirmativa II é correta.

  • Professor Alexandre é sensacional.
  • Arthur Camacho.

    Cuidado!!!

    III (CERTO) No segmento O fato é que não me sobrou nenhuma, e (conjunção adititiva) elas ganharam, talvez por isso... (5° parágrafo), pode-se acrescentar uma vírgula imediatamente antes de "e", sem prejuízo para a correção e o sentido.

    E (aditivo): Sujeitos diferentes (vírgula facultativa).

                      Sujeitos iguais (vírgula proibida).

    obs: Ligando orações com sujeitos diferentes, alguns gramáticos, como William R. Cereja e Bechara, dizem que a vírgula é facultativa:

    EX: “Muitos policiais estão envolvidos em corrupção(,) e os políticos não deixam para menos.”.

    No entanto, para a maioria dos gramáticos, é obrigatória!

    É NECESSÁRIO SABER QUAL O POSICIONAMENTO QUE AS OUTRAS BANCAS ADOTAM!!!

     

    Nossa hora chegará!

  • Quem leu "parenteses" e pensou "aspas", na II, deixa um joinha!

  • Resumindo: Entendimento da FCC

    Virgulação antes do E (Aditivo) , com SUJEITOS DIFERENTES - a vírgula FACULTATIVA, ou seja pode colocar ou não

  • PESSOAL COMO VCS ESTUDAM ESSAS MERDAS DE CASO DE VIRGULA ??? QUE RAIVA

  • Para identificar se os sujeitos são distintos é só perguntar para o verbo.

     

    O fato é que não me sobrou nenhuma e elas ganharam, talvez por isso... 

    O que sobrou ? Nenhuma

    Quem ganharam ? Elas