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ID
2375749
Banca
COPESE - UFJF
Órgão
UFJF
Ano
2017
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Ler devia ser proibido
(Guiomar de Gramont*)
A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-lo com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.
É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura? 
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão.
Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
Publicado originalmente em A formação do leitor: pontos de vista. Org. Juan Prado e Paulo Condini, Leia Brasil, 1999.
*Escritora e professora de Filosofia no Instituto de Filosofia e Artes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto)  

Releia a primeira frase do artigo de opinião de Guiomar de Gramont:
“A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.”
Acerca da forma verbal destacada acima, a única afirmativa CORRETA é:

Alternativas
Comentários
  • A frase deveria ter usado o modo indcativo  no tempo presente. Eu digo

  • Que questão estranha...Qual seria o erro da C?Alguém pode comentar?

  • A) O futuro do préterito do indicativo, dependendo do contexto, dentre outros sentidos, fornece-nos uma idéia de possibilidade. Logo, afirmar que o verbo "diria" atenua, ou seja, minimiza a assertividade ( certeza, afirmação ) do enuciado é considerado CORRETO.

    B) O tempo verbal, na frase selecionada, exprime processo anterior a um momento passado. ERRADO. Pois, o tempo que indica um processo anterior ao passado é o Pretérito Mais que Perfeito.

    C) O tempo verbal escolhido exprime, na frase, um processo encerrado posteriormente a uma época passada. ERRADO. Pois, o enuciado refere-se ao Pretérito Perfeito ( "disse" cuja forma indica algo encerrado, que não segue no decorrer do tempo )

    D) O tempo verbal destacado é incluído tradicionalmente entre os tempos do modo subjuntivo. ERRADO. Pois, apesar do valor discursivo do Futuro do Préterito, trata-se do modo INDICATIVO.

    E) O tempo verbal de “diria” é o “pretérito-mais-que-perfeito”. ERRADO. Pois, o verbo "diria" está no FUTURO DO PRETÉRITO DO INDICATIVO.

  • Gabarito: A

  • TEMPOS DO INDICATIVO

     

     

    PRESENTE - Expressa um fato atual.

     

    PRETÉRITO IMPERFEITO - Expressa um fato ocorrido num momento anterior ao atual, mas que não foi completamente terminado.

     

    PRETÉRITO PERFEITO (SIMPLES) - Expressa um fato ocorrido num momento anterior ao atual e que foi totalmente terminado.

     

    PRETÉRITO PERFEITO (COMPOSTO) - Expressa um fato que teve início no passado e que pode se prolongar até o momento atual.

     

    PRETÉRITO-MAIS-QUE-PERFEITO - Expressa um fato ocorrido antes de outro fato já terminado.

     

    FUTURO DO PRESENTE (SIMPLES)  - Enuncia um fato que deve ocorrer num tempo vindouro com relação ao momento atual.

     

    FUTURO DO PRESENTE (COMPOSTO) - Enuncia um fato que deve ocorrer posteriormente a um momento atual, mas já terminado antes de outro fato futuro.

     

    FUTURO DO PRETÉRITO (SIMPLES) - Enuncia um fato que pode ocorrer posteriormente a um determinado fato passado.

     

    FUTURO DO PRETÉRITO (COMPOSTO) - Enuncia um fato que poderia ter ocorrido posteriormente a um determinado fato passado.

     

  • No contexto, o autor usa "DIRIA" (futuro do pretérito) para atenuar a assertiva do enunciado.

    O verbo poderia estar corretamente no presente: "A pensar a fundo na questão, eu DIGO que ler devia ser proibido.”. Contudo, o texto seria menos polido.

    Conforme ensina Fernando Pestana em sua gramática: "O futuro do pretérito pode substituir o presente do indicativo, indicando polidez".

  • a-

    a pegadinha da questao é saber que atenuar significa "tornar mais fraco ou fragil". Uso do futuro do preterito indica algo que alguem gostaria que acontecesse, mas nao é possivel.

  • Letra a: correta. O futuro do pretérito pode ser usado para expressar polidez em pedidos e conselhos. Ou seja: ele tem um poder atenuante

    letra b: o tempo verbal que expressa tempo passado antes de outro tempo passado é o pretérito mais que perfeito do indicativo

    Letra c: errada

    letra d: trata-se do modo indicativo não do subjuntivo

    letra e: diria é futuro do pretérito