SóProvas


ID
2427943
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Para responder a questão, leia a crônica “Anúncio de João Alves”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente em 1954.

     Figura o anúncio em um jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

     À procura de uma besta. – A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de quatro a seis centímetros, produzido por jumento.

   Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.

  Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves Júnior.

  Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.

   Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem. Não escreveste apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois um raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e nítido retrato da besta.

   Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento.

   Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse cálculo”. Revelas aí a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.

   Finalmente – deixando de lado outras excelências de tua prosa útil – a declaração final: quem a apreender ou pelo menos “notícia exata ministrar”, será “razoavelmente remunerado”. Não prometes recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues.

   Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.

(Fala, amendoeira, 2012.)

“Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó.” (2º parágrafo)
Em relação ao período do qual faz parte, a oração destacada exprime ideia de

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: B

     

    COMENTÁRIO: 

     

    Classificação das orações subordinadas adverbiais

    A) CAUSAL: PORQUE, JÁ QUE, VISTO QUE, UMA VEZ QUE, COMO, PORQUANTO, NA MEDIDA EM QUE...

    Ex.:

    [Transferimos o passeio][na medida em que está chovendo].

    [Como está chovendo], [transferimos o passeio].

     

     

    B) CONSECUTIVA: (TÃO / TAL / TAMANHO / TANTO)...QUE, DE MANEIRA QUE, DE MODO QUE, DE FORMA QUE...

    Ex.:

    [Gritamos tanto] , [que eles acabaram ouvindo].

    [Ela era linda], [de modo que chamava a atenção].

     

    C) COMPARATIVA: (TAL)...QUAL, (TÃO)...COMO, (TANTO)...QUANTO, (TANTO)...COMO..., MAIS QUE, MENOS QUE

    Ex.:

    Envelheçamos [como as árvores fortes envelhecem].

    Aqui ninguém trabalha mais [do que o outro (trabalha)].

     

    D) CONCESSIVA: EMBORA, AINDA QUE, MESMO QUE, POR MAIS QUE, APESAR DE QUE, POSTO QUE...

    Ex.:

    Fui trabalhar, [por muito que me sentisse doente].

    [Conquanto gritasse], não me ouviam.

     

    E) CONDICIONAL: SE, CASO, SEM QUE (COM O VERBO NO SUBJUNTIVO), CONTANTO QUE, DESDE QUE, A MENOS QUE...

    Ex.:

    Farei o que pede [desde que você me ajude também].

    [A menos que te esforces], não terás sucesso.

     

    F) CONFORMATIVA: CONFORME, SEGUNDO, COMO, CONSOANTE, DE ACORDO COM...

    Ex.:

    Todos fizeram a tarefa [conforme pediu o chefe].

    Procedemos [como nos ditou a consciência].

     

    G) FINALIDADE: A FIM DE QUE , PARA QUE, COM O OBJETIVO DE, COM O FITO DE...

    Ex.:

    Explicarei de novo, [a fim de que tudo se esclareça].

    Dedique-se mais [para que você obtenha êxito].

     

    H) PROPORCIONAL: À PROPORÇÃO QUE, À MEDIDA QUE, QUANTO MENOS/MAIS ... (MAIS/MENOS)...

    Ex.:

    [À medida que estudo] , [fico mais segura].

    [Quanto mais rezo], mais assombração me aparece.

     

    I) TEMPORAL: QUANDO, ANTES QUE, LOGO QUE, ASSIM QUE, DEPOIS QUE, SEMPRE QUE, MAL...

    Ex.:

    João a ama [desde que a encontrou pela primeira vez].

    [Sempre que precisa de ajuda], Maria liga.

  • Concessivas = Introduzem uma oposição entre duas ideias, Oposição não é forte o suficiente para impedir a outra ação.

    embora, conquanto, que, ainda que, mesmo que, ainda quando, mesmo quando, posto que, por mais que, por muito que, por menos que, se bem que, em que pese, nem que, dado que, sem que (=embora não),não obstante, apesar de.

    Encontramos nossos amigos, mesmo sem os procurar.