SóProvas


ID
2712496
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
TRT - 1ª REGIÃO (RJ)
Ano
2018
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

                                          Texto I


                    Os medos que o poder transforma em

                        mercadoria política e comercial

                                                                                    Zygmunt Bauman


      O medo faz parte da condição humana. Poderíamos até conseguir eliminar uma por uma a maioria das ameaças que geram medo (era justamente para isto que servia, segundo Freud, a civilização como uma organização das coisas humanas: para limitar ou para eliminar totalmente as ameaças devidas à casualidade da Natureza, à fraqueza física e à inimizade do próximo): mas, pelo menos até agora, as nossas capacidades estão bem longe de apagar a “mãe de todos os medos”, o “medo dos medos”, aquele medo ancestral que decorre da consciência da nossa mortalidade e da impossibilidade de fugir da morte.

      Embora hoje vivamos imersos em uma “cultura do medo”, a nossa consciência de que a morte é inevitável é o principal motivo pelo qual existe a cultura, primeira fonte e motor de cada e toda cultura. Pode-se até conceber a cultura como esforço constante, perenemente incompleto e, em princípio, interminável para tornar vivível uma vida mortal. Ou pode-se dar mais um passo: é a nossa consciência de ser mortais e, portanto, o nosso perene medo de morrer que nos tornam humanos e que tornam humano o nosso modo de ser-no-mundo.

      A cultura é o sedimento da tentativa incessante de tornar possível viver com a consciência da mortalidade. E se, por puro acaso, nos tornássemos imortais, como às vezes (estupidamente) sonhamos, a cultura pararia de repente [...].

      Foi precisamente a consciência de ter que morrer, da inevitável brevidade do tempo, da possibilidade de que os projetos fiquem incompletos que impulsionou os homens a agir e a imaginação humana a alçar voo. Foi essa consciência que tornou necessária a criação cultural e que transformou os seres humanos em criaturas culturais. Desde o seu início e ao longo de toda a sua longa história, o motor da cultura foi a necessidade de preencher o abismo que separa o transitório do eterno, o finito do infinito, a vida mortal da imortal; o impulso para construir uma ponte para passar de um lado para outro do precipício; o instinto de permitir que nós, mortais, tenhamos incidência sobre a eternidade, deixando nela um sinal imortal da nossa passagem, embora fugaz.

      Tudo isso, naturalmente, não significa que as fontes do medo, o lugar que ele ocupa na existência e o ponto focal das reações que ele evoca sejam imutáveis. Ao contrário, todo tipo de sociedade e toda época histórica têm os seus próprios medos, específicos desse tempo e dessa sociedade. Se é incauto divertir-se com a possibilidade de um mundo alternativo “sem medo”, em vez disso, descrever com precisão os traços distintivos do medo na nossa época e na nossa sociedade é condição indispensável para a clareza dos fins e para o realismo das propostas. [...]

(Adaptado de http://www.ihu.unisinos.br/563878-os-medos-que-o -poder-transforma-em-mercadoria-politica-e-comercial-artigo-dezygmunt-bauman - Acesso em 26/03/2018)

Em relação às ideias do texto I, assinale a alternativa correta.

Alternativas
Comentários
  • CORRETA C

     

    O trecho do texto que justifica a resposta é:

     

    " Tudo isso, naturalmente, não significa que as fontes do medo, o lugar que ele ocupa na existência e o ponto focal das reações que ele evoca sejam imutáveis. Ao contrário, todo tipo de sociedade e toda época histórica têm os seus próprios medos, específicos desse tempo e dessa sociedade. Se é incauto divertir-se com a possibilidade de um mundo alternativo “sem medo”, em vez disso, descrever com precisão os traços distintivos do medo na nossa época e na nossa sociedade é condição indispensável para a clareza dos fins e para o realismo das propostas. [...]"

  • " (...) todo tipo de sociedade e toda época histórica têm os seus próprios medos, específicos desse tempo e dessa sociedade (...)"

    = "As diversas origens do medo e seus significados sócio-históricos são fluidos (...)"

    (Entendo que o medo se modifica ao longo do tempo e da sociedade, por isso fluido.)

     

     

    " (...) descrever com precisão os traços distintivos do medo na nossa época e na nossa sociedade é condição indispensável para a clareza dos fins e para o realismo das propostas.(...)"

    = "(...) e compreendê-los é tarefa obrigatória na finalidade de acessar sua funcionalidade nas diferentes épocas e contextos."

     

    descrever com precisão os traços distintivos do medo = compreendê-los (os medos)

    na nossa época e na nossa sociedade = nas diferentes épocas e contextos (final da frase)

    é condição indispensável = é tarefa obrigatória

    para a = na finalidade de...

    clareza dos fins e para o realismo das propostas = acessar sua funcionalidade (qual é a função/finalidade do medo?)

     

  • Assertiva C (Gabarito) "As diversas origens do medo e seus significados sócio-históricos são fluidos, e compreendê-los é tarefa obrigatória na finalidade de acessar sua funcionalidade nas diferentes épocas e contextos."

    -

    Fundamentação: 

    "Ao contrário, todo tipo de sociedade e toda época histórica têm os seus próprios medos, específicos desse tempo e dessa sociedade. Se é incauto divertir-se com a possibilidade de um mundo alternativo “sem medo”, em vez disso, descrever com precisão os traços distintivos do medo na nossa época e na nossa sociedade é condição indispensável para a clareza dos fins e para o realismo das propostas. [...]" [L 19-21]

    -

    Qualquer erro, avise-me! 

  • 30 minutos para resolver uma questão. Assim não da.

  • Jesus cristinho, será que apenas eu tive a sensação de ler o texto e não entender P nenhuma.

  • Texto complicado cansativo putzzz

  • Estou tentando entender o erro da A. Se alguém souber explicar...

  • Acredito que o erro da letra A tenha relação com duas expressões essenciais: fugaz e perene.

    Fugaz significa algo que tem curta duração, passageiro, que desaparece facilmente. Já perene significa algo que é eterno, que dura para sempre, que dura muito tempo. Parecem ser antônimos.

    Assim, acredito que este trecho da alternativa A invalida-a, de acordo com o texto: "é a nossa consciência de ser mortais e, portanto, o nosso perene medo de morrer (ou seja, nosso duradouro medo de morrer) que nos tornam humanos e que tornam humano o nosso modo de ser-no-mundo."

    Ao contrário desse entendimento, a letra A diz o seguinte: "O medo da morte, embora fugaz (ou seja, embora passageiro), cria a consciência de uma perene brevidade do tempo, instaurando no ser humano a possibilidade de um mundo alternativo, de acordo com cada período histórico."

    Errei, mas compreendi assim depois.

  • Consegui acertar, mas depois de muito tempo perdido com leitura e releitura, não sei se acertaria na hora da prova...

  • Se é incauto divertir-se com a possibilidade de um mundo alternativo “sem medo”, em vez disso, descrever com precisão os traços distintivos do medo na nossa época e na nossa sociedade é condição indispensável para a clareza dos fins e para o realismo das propostas. [...]

  • Fiquei entre C e D, e advinha qual foi que marquei?

    Ê isso mermo, a errada!

    Segue o baile!

  • Falou em fluido, falou em Bauman.

  • Primeira questão do dia, e já me custou 26 minutos.

  • Deus é mais!! que questão...

  • O português dessa banca é outro nível sinceramente.

  • a)ERRADO, O medo da morte, embora fugaz, cria a consciência de uma perene brevidade do tempo, instaurando no ser humano a possibilidade de um mundo alternativo, de acordo com cada período histórico.

    R: O texto faz crescer a ideia de que o medo tem, teve e terá grande relevância para produção socio-cultural. Fugaz é sinonimo de brevidade, passageiro.. Veja que é totalmente o contrário da "continuidade" trazida por Baumant. Porém, chamo atenção para o que verdadeiramente é fugaz: "um sinal imortal da nossa passagem, embora fugaz." (3º parágrafo, última linha). Nossa vida é fugaz, o medo não!

    b)ERRADO, O modo de ser-no-mundo é definido pelos traços distintivos dos diferentes contextos histórico-culturais. O medo da morte é, nesse ínterim, dispensável para a definição de toda produção cultural e artística.

    R: Seguindo a linha de pensamento da resposta anterior, o medo da morte não é nada dispensável! "

    "Foi precisamente a consciência de ter que morrer(...) Foi essa consciência que tornou necessária a criação cultural e que transformou os seres humanos em criaturas culturais(..."

    c)ERRADO, As diversas origens do medo e seus significados sócio-históricos são fluidos, e compreendê-los é tarefa obrigatória na finalidade de acessar sua funcionalidade nas diferentes épocas e contextos.

    R: Corretíssimo, a assertiva parafraseia o último parágrafo, o qual trago um pedaço aqui: "descrever com precisão os traços distintivos do medo na nossa época e na nossa sociedade é condição indispensável para a clareza dos fins e para o realismo das propostas. [.

    A funcionalidade do medo é justamente o que o autor diz em "clareza dos fins e o realismo das propostas", é preciso entender detalhadamente a finalidade e a proposta da cultura do medo em determinada época para compreender sua funcionalidade.

    d)ERRADO, Separar a vida e a morte é tarefa da criação cultural, uma vez que as invenções humanas permitem a superação da mortalidade humana e do medo desta.

    R: NADA supera a mortalidade humana.

    e)ERRADO, A possibilidade da imortalidade não cessaria a produção cultural, tendo em vista que a cultura independe da condição finita da vida humana.

    R: E se, por puro acaso, nos tornássemos imortais, como às vezes (estupidamente) sonhamos, a cultura pararia de repente [...].

  • Sobre a alternativa A.

    "O medo da morte, embora fugaz, cria a consciência de uma perene brevidade do tempo, instaurando no ser humano a possibilidade de um mundo alternativo, de acordo com cada período histórico." Dá para eliminar a alternativa com a primeira frase do texto: "O medo faz parte da condição humana."

    Se o medo faz parte da condição humana, segundo o autor, não é possível caracterizá-lo como sendo algo fugaz, passageiro.

    Vejamos a definição conforme o dicionário Aulete:

    FUGAZ

    1. Que tem velocidade, ligeireza, rapidez; RÁPIDO; LIGEIRO

    2. Que não dura muito, que passa ou desaparece depressa (momento fugaz; alegria fugaz); EFÊMERO; FUGIDIO; TRANSITÓRIO; PASSAGEIRO.