SóProvas


ID
2928556
Banca
Prefeitura do Rio de Janeiro - RJ
Órgão
Prefeitura de Rio de Janeiro - RJ
Ano
2019
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Texto: É brincando que se aprende


      O professor Pardal gostava muito do Huguinho, do Zezinho e do Luizinho e queria fazê-los felizes. Inventou, então, brinquedos que os fariam felizes para sempre, brinquedos que davam certo sempre: uma pipa que voava sempre, um peão que rodava sempre e um taco de beisebol que acertava sempre na bola. Os três patinhos ficaram felicíssimos ao receber os presentes e se puseram logo a brincar com seus brinquedos que funcionavam sempre.

      Mas a alegria durou pouco. Veio logo o enfado. Porque não existe nada mais sem graça que um brinquedo que dá certo sempre. Brinquedo, para ser brinquedo, tem de ser um desafio. Um brinquedo é um objeto que, olhando para mim, me diz: “Veja se você pode comigo!”. O brinquedo me põe à prova. Testa as minhas habilidades. Qual é a graça de armar um quebra-cabeça de 24 peças? Pode ser desafio para uma criança de 3 anos, mas não para mim. Já um quebra-cabeça de 500 peças é um desafio. Eu quero juntar as suas peças! Para isso, sou capaz de gastar meus olhos, meu tempo, minha inteligência, meu sono.

      Qualquer coisa pode ser um brinquedo. Não é preciso que seja comprado em lojas. Na verdade, muitos dos brinquedos que se vendem em lojas não são brinquedos precisamente por não oferecerem desafio algum.

      Que desafio existe numa boneca que fala quando se aperta a sua barriga? Que desafio existe num carrinho que anda ao se apertar um botão? Como os brinquedos do professor Pardal, eles logo perdem a graça. Mas um cabo de vassoura vira um brinquedo se ele faz um desafio: “Vamos, equilibre-me em sua testa!”. Quando era menino, eu e meus amigos fazíamos competições para saber quem era capaz de equilibrar um cabo de vassoura na testa por mais tempo. O mesmo acontece com uma corda no momento em que ela deixa de ser coisa para se amarrar e passa a ser coisa de se pular.

      Laranjas podem ser brinquedos? Meu pai era um mestre em descascar laranjas sem arrebentar a casca e sem ferir a fruta. Para o meu pai, a laranja e o canivete eram brinquedos. Eu olhava para ele e tinha inveja. Assim, tratei de aprender. E ainda hoje, quando vou descascar uma laranja, ela vira brinquedo nas minhas mãos ao me desafiar: “Vamos ver se você é capaz de tirar a minha casca sem me ferir e sem deixar que ela arrebente”.

       Para um alpinista, o Aconcágua é um brinquedo: é um desafio a ser vencido. Mas um morrinho baixo não é brinquedo porque é muito fácil – não é desafio. Ao escalar o Aconcágua, ele está medindo forças com a montanha ameaçadora! Pelo desafio dos picos, os alpinistas arriscam as suas vidas, e muitos morrem. Parodiando o Riobaldo: “Brincar é muito perigoso...”.

      Há brinquedos que são desafios ao seu corpo, à sua força, à sua habilidade, à sua paciência. E há brinquedos que são desafios à inteligência. A inteligência gosta de brincar. Brincando, ela salta e fica mais inteligente ainda. Brinquedo é tônico para a inteligência. Mas se ela tem de fazer coisas que não são desafio, ela fica preguiçosa e emburrecida.

      Todo conhecimento científico começa com um desafio: um enigma a ser decifrado! A natureza desafia: “Veja se você me decifra!”. E aí os olhos e a inteligência do cientista se põem a trabalhar para decifrar o enigma. Assim aconteceu com Johannes Kepler (15711630), cuja inteligência brincava com o movimento dos planetas. Assim aconteceu com Galileu Galilei (1564-1642), que, ao observar a natureza, tinha a suspeita de que ela falava uma linguagem que ele não entendia. Pôs-se, então, a observar e a pensar (ciência se faz com essas duas coisas, olho e cérebro!) até que decifrou o enigma: a natureza fala a linguagem da matemática! E até hoje os cientistas continuam a brincar o mesmo brinquedo descoberto por Galileu.

      Aconteceu assim também com um monge chamado Gregor Johann Mendel (1882-1962). No seu mosteiro havia uma horta onde cresciam ervilhas. Os outros monges, vendo as ervilhas, pensavam em sopa. Mas Mendel percebeu que elas escondiam um segredo. E ele tanto fez que acabou por descobrir o segredo que nos revelou o incrível mundo da genética. E não é esse mesmo jogo que faz a criança que está começando a aprender a ler? Ela olha para as letras-ervilhas e tenta decifrar a palavra que elas formam. Tudo é brinquedo!

Rubem Alves
https://institutorubemalves.org.br/wp-content/uploads/2018/08/2002.12.17.pdf

“E ele tanto fez que acabou por descobrir o segredo...” (último parágrafo) Neste fragmento, a palavra em destaque introduz a ideia de:

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: LETRA C

    E ele tanto fez que acabou por descobrir o segredo...

    >>> tanto...que --- expressam uma consequência, um efeito que é declarado na oração principal >>> a consequência expressada foi ele descobrir algo.

    Força, guerreiros(as)!!

  • “E ele tanto fez que consequentemente acabou por descobrir o segredo..."

  • Gabarito: C

     

     

    Complementando o excelente comentário do colega Arthur,

     

    a questão explora o conhecimento das conjunções subordinadas adverbiais, essas que ligam orações dependentes a uma oração principal, cujo sentido é incompleto.

     

    a) Causais -> indicam o motivo da realização ou não de um fato expresso na oração anterior. Principais conjunções e locuções conjuntivas: porque, já que, uma vez que, visto que, como, haja vista e pois

     

    Fui aprovada porque me preparei com antecedência.

     

    b) Condição -> apresentam a circunstância de que depende a realização do fato expresso na oração principal. Principais conjunções e locuções conjuntivas: se (trocar por caso), caso, ao menos que, desde quecontanto que.

     

    Se (caso) não houver provas concretas, o acusado não será condenado.

     

    d) Concessão -> indicam uma concessão em relação ao fato que é expresso na oração principal. Principais conjunções e locuções conjuntivas: embora, conquanto, não obstante (troca por embora), ainda que e apesar de que.

     

    Ela acerta cada vez mais questões, embora esteja se preparando há pouco tempo.

  • Regra do tesão: a consequência (conjunção consecutiva) vem depois do tesão (tal, tanto, tão, tamanho);

     

    Assim, temos: “E ele tanto (tesão) fez que (consequência) acabou por descobrir o segredo...” 

     

    Quem escolheu a busca não pode recusar a travessia - Guimarães Rosa

    ------------------- 

    Gabarito: C

  • GAB: C

    Um adendo: Diferença doQUE em orações adjetivas e adverbial consecutiva

    Nós fizemos um barulho QUE incomodava a todos ( adj. restritiva - pronome relativo com função de sujeito )

    Nós fizemos um barulho QUE ninguém conseguia dormir ( consecutiva - "Fizemos um barulho TÃO GRANDE que" )

  • REGRA DO "TESÃO"

  • revisar

  • GABARITO: LETRA C

    Consecutivas: introduzem uma oração que expressa a consequência da principal. São elas: de sorte que, de modo que, sem que (= que não), de forma que, de jeito que, que (tendo como antecedente na oração principal uma palavra como tal, tão, cada, tanto, tamanho), etc. Por exemplo:

    Estudou tanto durante a noite que dormiu na hora do exame.

    A dor era tanta que a moça desmaiou.

    FONTE: WWW.SÓPORTUGUÊS.COM.BR

  • Ele tanto fez ISSO... que a consequência foi QUE...

  • Ele tanto fez ISSO... que a consequência foi QUE...