SóProvas


ID
3395995
Banca
AOCP
Órgão
Prefeitura de Juiz de Fora - MG
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

                                  Considerações sobre a loucura

                                                                                                            Ferreira Gullar


      Ouço frequentemente pessoas opinarem sobre tratamento psiquiátrico sem na verdade conhecerem o problema. É bacana ser contra internação. Por isso mesmo traçam um retrato equivocado de como os pacientes eram tratados no passado em manicômios infernais por médicos que só pensavam em torturá-los com choques elétricos, camisas de força e metê-los em solitárias.

      Por isso mesmo exaltam o movimento antimanicomial, que se opõe à internação dos doentes mentais. Segundo eles, os pacientes são metidos em hospitais psiquiátricos porque a família quer se ver livre deles. Só pode fazer tal afirmação quem nunca teve que conviver com um doente mental e, por isso, ignora o tormento que tal situação pode implicar.

      Nada mais doloroso para uma mãe ou um pai do que ter de admitir que seu filho é esquizofrênico e ser, por isso, obrigado a interná-lo. Há certamente pais que se negam a fazê-lo, mas ao custo de ser por ele agredido ou vê-lo por fim à própria vida, jogando-se da janela do apartamento.

      Como aquelas pessoas não enfrentam tais situações, inventam que os hospitais psiquiátricos, ainda hoje, são locais de tortura. Ignoram que as clínicas atuais, em sua maioria, graças aos remédios neuroléticos, nada têm dos manicômios do passado.

      Recentemente, num desses programas de televisão, ouvi pessoas afirmarem que o verdadeiro tratamento psiquiátrico foi inventado pela médica Nise da Silveira, que curava os doentes com atividades artísticas. Trata-se de um equívoco. A terapia ocupacional, artística ou não, jamais curou algum doente.

      Trata-se, graças a Nise, de uma ocupação que lhe dá prazer e, por mantê-lo ocupado, alivia-lhe as tensões psíquicas. Quando o doente é, apesar de louco, um artista talentoso, como Emygdio de Barros ou Arthur Bispo do Rosário, realiza-se artisticamente e encontra assim um modo de ser feliz.

      Graças à atividade dos internados no Centro Psiquiátrico Nacional, do Engenho de Dentro, no Estado do Rio, criou-se o Museu de Imagens do Inconsciente, que muito contribuiu para o reconhecimento do valor estético dos artistas doentes mentais. Mas é bom entender que não é a loucura que torna alguém artista; de fato, ele é artístico apesar de louco.

      Tanto isso é verdade que, das dezenas de pacientes que trabalharam no ateliê do Centro Psiquiátrico, apenas quatro ou cinco criaram obras de arte. Deve-se reconhecer, também, que conforme a personalidade de cada um seu estado mental compõe a expressão estética que produz.

      No tal programa de TV, alguém afirmou que, graças a Nise da Silveira, o tratamento psiquiátrico tornou-se o que é hoje. Não é verdade, isso se deve à invenção dos remédios neurolépticos que possibilitam o controle do surto psíquico.

      É também graças a essa medicação que as internações se tornaram menos frequentes e, quando necessárias, duram pouco tempo – o tempo necessário ao controle do surto por medicação mais forte. Superada a crise, o paciente volta para casa e continua tomando as doses necessárias à manutenção da estabilidade mental.

      Não pretendo com esses argumentos diminuir a extraordinária contribuição dada pela médica Nise da Silveira ao tratamento dos doentes mentais no Brasil. Fui amigo dela e acompanhei de perto, juntamente com Mário Pedrosa, o seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional. 

      Uma das qualidades dela era o seu afeto pelas pessoas e particularmente pelo doente mental. Eis um exemplo: como o Natal se aproximava, ela perguntou aos pacientes o que queriam de presente. Emygdio respondeu: um guarda-chuva.

      Como dentro do hospital naturalmente não chovia, ela concluiu que ele queria ir embora para casa. E era. Ela providenciou para que levasse consigo tinta e tela, a fim de que não parasse de pintar.

      Ele se foi, mas, passado algum tempo, alguém toca a campainha do gabinete da médica. Ela abre a porta, era o Emygdio, de paletó, gravata e maleta na mão. “Voltei para continuar pintando, porque lá em casa não dava pé.” E ficou pintando ali até completar 80 anos, quando, por lei, teve que deixar o hospital e ir para um abrigo de idosos, onde morreu anos depois.

(Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/2016/02/174 1258-consideracoes-sobre-a-loucura.shtml)

Assinale a alternativa em que a expressão ou termo destacado apresenta a mesma função sintática da expressão destacada a seguir: “...ir para um abrigo de idosos...”.

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: LETRA E

     ?...ir para um abrigo de idosos...? (=temos uma locução adjetiva com função de adjunto adnominal, qualifica o substantivo "abrigo").

    A) ...teve que deixar o hospital ? deixar alguma coisa (=o hospital ? objeto direto do verbo "deixar").

    B) ...os pacientes são metidos em hospitais psiquiátricos ? temos um adjetivo com função sintática de predicativo do sujeito, observa-se que vem após o verbo de ligação.

    C) ...o paciente volta para casa ? quem volta? O paciente (=sujeito).

    D) ...continua tomando as doses necessárias à manutenção da estabilidade mental ? doses necessárias a algo (=adjetivo pedindo um complemento preposicionado, o termo em destaque é complemento nominal).

    E) ...o tratamento psiquiátrico tornou-se o que é hoje ? temos um adjetivo com função sintática de adjunto adnominal.

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  • É bom lembrar que o adjunto adnominal é todo termo sintático da oração que pode caracterizar, determinar, modificar, especificar ou restringir um substantivo.

    Esse termo pode ser representado por:

    1) um artigo:                                   O carro parou.

    2) um pronome adjetivo:             Encontrei meu relógio.

    3) um numeral adjetivo:               Recebi a segunda parcela.

    4) um adjetivo:                               Tive ali grandes amigos.

    5) uma locução adjetiva:              Tenho uma mesa de pedra.

    Já o complemento nominal é sempre precedido de preposição e completa o sentido de substantivos, adjetivos e advérbios que apresentam transitividade.

    Observe os exemplos a seguir:

    1) complemento nominal de um substantivo:

    Você fez uma boa leitura do texto.

    Note que o substantivo “leitura” é o nome da ação de “ler”. Como é natural o verbo ser transitivo, o substantivo também fica transitivo e exige complemento nominal.

    2) complemento nominal de um adjetivo:

    Você precisa ser fiel aos seus ideais.

    Quem é fiel é fiel a alguém ou a alguma coisa. Assim, o adjetivo “fiel” é transitivo, ou seja, necessita de complemento.

    3) Complemento nominal de advérbio:

    Você mora perto de Maria.

    Note que o advérbio de lugar “perto” necessita de um complemento: perto de algo ou de alguém.

     

    Visto isso, agora podemos entender como distinguir o adjunto adnominal do complemento nominal.

    adjunto adnominal formado por uma locução adjetiva pode ser confundido com o complemento nominal. Normalmente não haverá dúvida, pois, segundo o que explicamos acima, o adjunto adnominal é constituído de vocábulo de valor restritivo que caracteriza o núcleo do termo de que faz parte. Já o complemento nominal é termo que completa o sentido de um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio).

    A dúvida ocorre, portanto, quando os dois termos são preposicionados. Por exemplo:

    A leitura do livro é instigante.      A leitura do aluno foi boa.

  • O adjunto adnominal é o termo acessório que determina especifica ou explica um substantivo. É uma função adjetiva, pois são os adjetivos e as locuções adjetivas que exercem o papel de adjunto adnominal na oração. Também atuam como adjuntos adnominais os artigos, os numerais e os pronomes adjetivos

    **Se relaciona com substantivos *concretos e abstratos 

     O poeta inovador enviou dois longos trabalhos ao seu amigo de infância .

    O termo que integra o sentido de um nome chama-se complemento nominal, que se liga ao nome que completa por intermédio de preposição:

    * Só se relaciona com substantivos *abstratos 

    A arte é necessária à vida, = relaciona-se com a palavra "necessária" 

    Temos medo de barata. = ligada à palavra "medo"

    Regência de Necessário – a , em , para

     "Sugeria as medidas necessárias à preservação do crédito e do bom-nome do Brasil

    "O uso atual de semelhantes contrações é necessário em muitos casos."

    "Tinha o amor-próprio necessário para não sucumbir sem glória, humilhando-se a um homem que não a compreendia."

  • errei pq achei que o "de idosos" fosse CN.