SóProvas


ID
3475609
Banca
IBADE
Órgão
IDAF-AC
Ano
2020
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Texto 1


      Antes que elas cresçam


    Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

    É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

    Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

    Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

    Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

   Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

   Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

    Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

    Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

    Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de Pilot. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

     Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

     No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

    O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.

     Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.



Affonso Romano de Sant´ Anna (Fonte: http://www.releituras.com/arsant_antes.asp, acesso em janeiro de 2020.) 




Texto 2


POEMA ENJOADINHO


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos

Como sabê-lo?

Se não os temos

Que de consulta

Quanto silêncio

Como o queremos!

Banho de mar

Diz que é um porrete...

Cônjuge voa

Transpõe o espaço

Engole água

Fica salgada

Se iodifica

Depois, que boa

Que morenaço

Que a esposa fica!

Resultado: filho,

E então começa

A aporrinhação:

Cocô está branco

Cocô está preto

Bebe amoníaco

Comeu botão. F

ilhos? Filhos.

Melhor não tê-los

Noite de insônia

Cãs prematuros

Prantos convulsos

Meu Deus, salvai-o!

Filhos são o demo

Melhor não tê-los...

Mas se não os temos

Como sabê-los?

Como saber

Que macieza

Nos seus cabelos

Que cheiro morno

Na sua carne

Que gosto doce

Na sua boca!

Chupam gilete

Bebem xampu

Ateiam fogo

No quarteirão

Porém, que coisa

Que coisa louca

Que coisa linda

Que os filhos são!


(Fonte: Vinícius de Moraes. Poesia completa & prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1987. p. 261-2.)

Após leitura atenta do trecho: “Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados.”, assinale a alternativa que justifica o devido emprego de vírgula no fragmento destacado:

Alternativas
Comentários
  • GABARITO: LETRA E

    → “Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados.”

    → Temos uma oração coordenada sindética explicativa, o uso da vírgula antes da conjunção "pois" é obrigatório.

    BIZU: Sempre que aparecer o “pois”, verificar se ele está antes ou depois do verbo. 

    PAVÊ => Pois Antes do Verbo Explicação - Quando tiver valor explicativo, sempre virá antecedido de vírgula. 

    PDVC => Pois Depois do Verbo Conclusão. Ex: Vamos logo, pois o show está para começar >> o show vai começar é explicação do motivo pelo qual pedi que fossemos logo.

    ☛ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

  • Gab: E

     “Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados.

    >> A frase em destaque é uma oração coordenada sindética explicativa!

    BIZU:

    Sempre que aparecer o “pois”, verificar se ele está antes ou depois do verbo.

    PAVÊ => Pois Antes do Verbo Explicação

               - Quando tiver valor explicativo, sempre virá antecedido de vírgula.

    PDVC => Pois Depois do Verbo Conclusão.

    Ex: Vamos logo, pois o show está para começar >> o show vai começar é explicação do motivo pelo qual pedi que fossemos logo.

               - Embora não seja uma regra, em geral o pois explicativo vem junto de um verbo no imperativo. Mas pode acontecer de não ser assim, vamos a um exemplo:

               Ex: Perdida está, pois não se recuperam tão fáceis assim as florestas >> Mas regra do PAVÊ ajuda bastante Qual o verbo? Recuperar, o pois está antes do verbo, logo é explicação.

    Obs: é preciso olhar para o verbo da oração em que o "pois" aparece, e não na oração anterior!!!

  • O primeiro aspecto para o qual deve atentar-se: há uma oração subordinada adverbial. O segundo detalhe: aparece póstera à oração principal. Nesses casos, pode-se ou não inserir a vírgula. O que determinará a inserção ou não será o prolongamento da estrutura. Se longa, usa-se a vírgula; se não, evita-se, conforme lição de Maria Tereza de Queiroz Piacentini em seu livro "Só Vírgulas - Método Fácil em Vinte Lições" (p.80).

    a) Incorreto. A estrutura é extensa, logo não se dispensa a vírgula;

    b) Incorreto. A estrutura é extensa, não é dispensável e a conjunção subordinativa é explicativa;

    c) Incorreto. A conjunção subordinativa é explicativa e não conclusiva, de modo que outra vírgula, isolando-a, alteraria o sentido;

    d) Incorreto. A estrutura é extensa, não se dispensa a vírgula e a conjunção subordinativa é explicativa;

    e) Correto.

    Letra E

  • Objetivamente:

    I) não levo grande fé nestas fórmulas do pois , porque em alguns casos levam ao automático.

     Se a oração iniciada pela conjunção indicar a causa da oração anterior (ou se a oração principal for a consequência da subordinada), a conjunção é causal. Caso contrário, é uma explicativa.

     Sucesso!

  • Assertiva E

    utiliza-se vírgula obrigatoriamente antes da conjunção ‘pois’ por ter valor explicativo.

  • antes de conjunções adversativas e explicativas, vai virgula.

  • Alguns têm falado que é uma oração coordenada sindética explicativa, outros têm falado que é uma oração subordinada adverbial explicativa (causal). Qual dos dois é? Se for coordenada, poderia substituir a vírgula por um ponto?

  • Vírgula antes do pois sempre será valor explicativo. Isso é fundamental para você levar para redação.

    Concursos públicos vale a pena ainda ?

    https://www.youtube.com/watch?v=oFe049GkADs

  • "POIS" pode ser: explicativo ou conclusivo.

    a) "Esconda-se, pois alguém se aproxima";

    b) "Era um aluno de caráter; foi, pois, um professor exemplar".

    Em ambas as orações, pois é uma conjunção, porque une duas orações: no primeiro caso, por ter o significado de porque, é uma conjunção coordenativa explicativa; no segundo caso, tendo como sinônimas logo, portanto, por conseguinte, é uma conjunção coordenativa conclusiva.

    "Pois" explicativo: uma vírgula (geralmente, fica no início e meio da frase)

    "Pois" conclusivo: duas vírgulas. (Geralmente, fica no final da frase)

    NÃO É UMA REGRA. DEVE SER AVALIADA A FORMA DIRETA E INDIRETA DA FRASE

  • QUANDO O ''POIS'' FOR UMA CONJUNÇÃO DE VALOR CONCLUSIVO, USA-SE VÍRGULA ANTES E DEPOIS.

    EXEMPLO:

    JOÃO ERA UM BOM FILHO, TORNOU-SE, POIS, UM BOM PAI.

    OUTRAS CONJUNÇÕES CONCLUSIVAS:

    PORTANTO, ENTÃO, ASSIM, LOGO...

  • Usar a vírgula em "pois" antes do verbo: Tem valor explicativo, equivale a porque!

    Usar a vírgula em "pois" depois do verbo: Tem valor conclusivo, equivale a portanto!

  • VÍRGULA EM ORAÇÕES COORDENADAS:

    ~> Conclusivas; Adversativas e Explicativas

    ANTES = Obrigatória

    DEPOIS = Facultativa (Exceto após o "mas", que será proibido)

    ~> Aditivas e Alternativas

    ANTES = Facultativo

    DEPOIS = Facultativo

  • o 'pois' tem valor conclusivo quando posto entre vírgulas com sentido de 'então'

    EX: -está com a caneta?

    -sim!

    -Escreve, pois, assim: .... (Escreve assim 'então' / Escreve, 'então', assim).

    .

    .

    .

    O pois da questão tem valor explicativo 'causal'. Vejamos:

    (...) subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, (consequência).

    > POR QUE COMEÇOU A SER UM SOFRIMENTO? (qual a CAUSA do sofrimento?)

    pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. (causa)

    A frase poderia ficar assim:

    subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, porque era impossível deixar a turma...

    Como inserir um 'pois' com valor conclusivo nessa frase? assim:

    > Era impossível deixar a turma aqui na praia (...) subir para a casa de campo com os pais começou, POIS, a ser um esforço, um sofrimento. (...começou, então, a ser um sofrimento).

    Qualquer erro acima peço que corrijam, sou apenas um inciante.