SóProvas


ID
4138489
Banca
IDECAN
Órgão
Prefeitura de Manhumirim - MG
Ano
2017
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

O amor acaba
(Paulo Mendes Campos.)

    O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

(WERNECK, Humberto (org.). Boa companhia – Crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.)

... no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu...”. Com relação ao termo sublinhado é correto afirmar que introduz uma oração 

Alternativas
Comentários
  • Gab : D

    no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu...”. Com relação ao termo sublinhado é correto afirmar que introduz uma oração --> introduz uma conjunção adversativa, trazendo uma ideia de oposição.

  • A temática compreendida pela questão é a equivalência conjuntiva, ou seja, o sentido equivalente entre locuções e/ou conjunções. Para responder corretamente, deve-se inspecionar a conjunção "mas" e cotejá-la com as opções de resposta a fim de reconhecer seu sentido.

    Analisemos a frase:

    ... no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu...”. 

    A conjunção sublinhada, da qual mais se servem estabelecer oposição, contraste, é classificada em conjunção coordenativa adversativa.

    a) Causal.

    Incorreto. Estas são locuções e conjunções que carregam sentido causal: como (início de frase), visto que, dado que, uma vez que, etc.;

    b) conclusiva.

    Incorreto. Estas são conjunções que carregam sentido conclusivo: pois, porquanto, portanto, então, etc.;

    c) explicativa.

    Incorreto. Estas são conjunções que carregam sentido explicativo: porque, que, pois;

    d) adversativa

    Correto. Estas são outras conjunções que carregam sentido adversativo: porém, contudo, entretanto, etc.

    Letra D

  • Conjunções adversativas: mas, porém, contudo, no entanto, entretanto e todavia :)

    GABRITO ( E )

  • milagre não ter vindo ninguém comentar "EssA fOi pRa nAõ zErAr a ProVA"

    mais humildade, meus colegas.

  • O "mas" pode ter dois sentidos, por exemplo:

    Aditivo:

    Ele é inteligente, mas também é esforçado.

    Esse "mas" aqui da uma ideia de adição!

    Adversativo:

    Ele é inteligente, mas não tira boas notas.

    Esse "mas" trouxe uma ideia de oposição, contraste!

    Um bizu muito bom e eficiente, é que quando é Adversativa o "mas" quebra uma expectativa, ou seja, se um aluno é inteligente, ele deveria tirar boas notas, mas como vimos aqui, o "mas" é adversativo e trouxe uma ideia de oposição, diferentemente do Aditivo, que só "adicionou" outra qualidade ao Sujeito(Ele).