SóProvas


ID
5365921
Banca
CEV-URCA
Órgão
Prefeitura de Crato - CE
Ano
2021
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

O caso da borboleta


"Ninguém nasce borboleta", pensou Breno. Depois disse baixinho: "A borboleta é um presente do tempo". Lá fora, ela, a borboleta, não pensava nada disso. Ocupava-se em voar pela noite de árvore em árvore. Era azul e sem dúvida um dia havia sido lagarta. Breno tem nove anos e é uma criança, a lagarta é como se fosse uma borboleta criança, mas quando Breno for adulto vira homem e não borboleta, e homens não voam. Sonho de Breno é voar, seja como piloto de avião ou jogador de futebol. Como borboleta, Breno nunca chegou a pensar, tem nove anos, mas sabe que é menino e não lagarta. A avó de Breno sempre diz: "Lagarta queima o dedinho e come planta, mas vira borboleta. Ninguém nasce borboleta". Agora o menino pensa e olha a borboleta na janela. "De manhã vi um monte de buraquinhos nas folhas"; explicaram a ele: "É coisa de lagarta". Os buracos nas acerolas e goiabas eram coisa dos passarinhos. Isso ninguém precisou explicar, porque ele sempre viu os passarinhos indo bicar as frutas, menos o beija-flor, que só ia bicar a água no copo de flor pendurado na goiabeira. "O que será que borboleta come? Será que beija-flor só bebe água? "Pensou muito nisso e sentiu fome. Saiu em direção à cozinha.


A avó cochilava de frente para a novela das sete. Justamente aquela durante a qual ela mais gostava de cochilar. Breno sabia disso e não quis acordá-la pra pedir comida. Na cozinha a janela estava aberta. Era uma janela enorme e dava de frente pro quintal da casa. Algumas vezes Breno ouviu gente falando como era engraçado aquela janela na cozinha. A avó sempre explicava que, antes de cozinha, ali havia sido quarto, e por isso a tal janela. Breno achava normal. Desde que tem lembrança, ali é cozinha e tem janela e ele adora. Enquanto sua avó faz o almoço, ele olha para o mundo. O azar é daqueles que não têm janela na cozinha. Breno decidiu que a melhor coisa pra comer naquele momento era biscoito. "Tomara que tenha. Se não tiver, seria muito bom comer uns ovos."Sabe como fazer: é só acender o fogo apertando o botão, colocar a frigideira em cima do fogo, quebrar o ovo em cima da frigideira e ficar mexendo com o garfo. Agora que já tem nove anos nem precisa mais de cadeira pra mexer no fogão. Abre a geladeira e tem três ovos. Fecha a geladeira e vai procurar o biscoito. Entra uma borboleta na cozinha. É maior e mais bonita que a outra. Parece desesperada, bate nas paredes uma a uma até ficar presa pela porta encostada. Breno vai até a porta e a puxa para que saia, de lá voa direto pro outro lado da cozinha, onde ficam a janela e o fogão. Breno acompanha com o olhar e espera que consiga sair logo pela janela. Em cima do fogão tem uma panela destampada cheia de óleo (no almoço teve batata frita), a borboleta voa na direção do fogão e, assim que chega em cima da panela, cai no óleo como se tivesse sido atraída pra lá igual quando Breno atrai moedas com seu ímã.


Ele correu pra ver a borboleta, ela nadava pelo óleo lentamente. Quis tirá-la de lá, mas nunca colocou a mão no óleo antes. Só queima se estiver de fogo aceso, tinha quase certeza. Correu até o papel-toalha e tirou a borboleta de dentro da panela. Olhou-a com atenção: toda coberta de óleo. Todas as partes do seu corpo de inseto. As asas pingavam óleo pela cozinha. Agora tinha certeza: só queimava se tivesse ligado o fogo. A borboleta se mexia muito. Tratou de colocá-la em cima da janela. Pegou o biscoito e foi para o quarto. Começou a comer, era de chocolate e era bom.


Ainda assim, não conseguia esquecer a borboleta nadando no óleo. Seu corpo inteiro afundado no óleo. Logo começou a imaginar como seria se fosse ele, mergulhado no óleo numa panela gigante que cabe criança. Imaginou seu cabelo cheio de óleo, seus olhos, ouvidos, nariz, boca. Comia o biscoito e imaginava. Lambeu o dedo que havia colocado na panela pra imaginar melhor seu corpo no óleo. Não gostava de imaginar, mas não conseguia evitar. Era igual cheirar a mão quando está fedendo, ou alguma coisa assim. Lambeu, e o gosto era péssimo. Muito pior que o gosto do biscoito de chocolate. Lembrou de sua avó que dizia que o pozinho da borboleta, se batesse no olho, deixava cego. Ficou com medo de passar mal. O dedo que lambeu, além de óleo devia ter o tal pozinho. Correu até a cozinha para ver a borboleta. Estava dura, morta. Teve pena e quis enterrar. Decidiu que a borboleta seria seu bicho preferido, caso não passasse mal por conta daquela lambidinha no dedo. Precisava avisar a avó pra não fritar mais batata naquela panela. Enquanto não amanhecia, deixaria a borboleta na janela da cozinha. No caminho de volta pro quarto viu que a avó ainda cochilava. Deitou na cama, sua cabeça realizou os últimos mergulhos no óleo.


Começou a pensar apenas em não passar mal por conta do pozinho da borboleta. Ninguém nasce borboleta. Sentiu medo e uns trecos no estômago, se apavorou achando que era consequência do pozinho que cega quando cai no olho, e depois dormiu.


(FONTE: Geovani Martins. O sol na cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 2018)

Assinale a ÚNICA alternativa que traz o uso incorreto da vírgula:

Alternativas
Comentários
  • Gabarito na alternativa A

    Solicita-se construção com uso incorreto de virgula.

    A) Não gosto, nem desgosto.

    Incorreto. Há inadequação no uso da virgula.

    O termo "nem", aditivo, é a aglutinação de "e não", conjunção aditiva + adverbio de negação, não sendo correta a anteposição de virgula.

    "Não gosto nem (e não) desgosto."

    Exceção é o caso de enumeração com o termo "nem":

    "Ana não gostava de Pedro, nem de Paulo, nem de George, nem de ninguém."

    B) Quando sai o resultado, ainda não sei.

    Correta. A virgula isola oração subordinada adverbial temporal deslocada para o início da construção.

    C) Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em estar plantando-a.

    Correto. A virgula separa construção intercalada, munida com verbo dicendi, que indica o autor da fala transcrita.

    D) Estudei muito, mas não consegui ser aprovada.

    Correto. A virgula deve sempre ser empregada para demarcar a oração coordenada adversativa.

    E) Minha filha, de quem só guardo boas lembranças, deixou-nos em fevereiro de 2020.

    Correta. As virgulas demarcam termo oracional, oração explicativa, com valor apositivo.

  • Se as conjunções vierem repetidas (polissíndeto), a vírgula é obrigatória:

    Nem o sol, nem o mar, nem o brilho das estrelas..

    Gramática

  • A questão exigiu conhecimento em uso da vírgula e quer saber qual assertiva possui uma frase com uso da vírgula incorretamente. Vejamos:

    a) Incorreta.

    "Não gosto, nem desgosto"

    O erro consiste em separar orações aditivas visto que estão sendo ligadas pela conjunção "nem" com sentido de soma de ideias.

    b) Correta.

    "Quando sai o resultado, ainda não sei"

    As orações subordinadas adverbiais temporais antecipadas devem ser marcadas por vírgulas.

    c) Correta.

    "Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em estar plantando-a."

    A vírgula está isolando uma oração interferente, isto é, uma oração que não interfere sintaticamente nas outras, mas que acrescenta uma observação. Todas as orações interferentes devem vir marcadas por vírgula.

    d) Correta.

    "Estudei muito, mas não consegui ser aprovada."

    A vírgula separa uma oração coordenada de adversidade que é iniciada pela conjunção "mas" e sempre deve vir marcada por vírgula.

    e) Correta.

    Minha filha, de quem só guardo boas lembranças, deixou-nos em fevereiro de 2020.

    O termo entre vírgulas tem valor de aposto oracional, pois insere uma explicação sobre a filha e é oracional porque tem um verbo na estrutura "guardo".

    Gabarito do monitor: A

  • [ NEM ] o uso da vírgula é facultativo.. banquinha...