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ID
5543872
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Jundiaí - SP
Ano
2021
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Leia um trecho do romance Anel de vidro, de Ana Luisa Escorel, para responder à questão.


    Quando apareceu a decisão de ir para o sul, a mãe começou a pregar botões onde faltavam, cerzir puídos e refazer as barras desfeitas da meia dúzia de calças que levaria.

    O pai deu dois ou três conselhos de praxe, o dinheiro da passagem e um pouco mais. O tanto para aguentar perto de quinze dias na casa do tio, onde ficaria até conseguir emprego. E assim foi e ele se despediu, triste por deixar a irmã a quem era bastante ligado. Deve ter recebido a bênção protocolar, de longe. Não era hábito na família os mais velhos ficarem se expondo em demonstrações de afeto. Adulto só encostava em criança para dar cascudo.

    Andou sozinho até a rodoviária, sem ninguém junto para encurtar a partida. Foi carregando a malinha – leve, quase nada dentro –, com um travo no peito e o coração aos trancos.

    A viagem tomava um dia e uma noite, e eram poucas as paradas em postos de gasolina com bares cheios de moscas e banheiros imundos. No ônibus, cadeiras desconfortáveis e como companheira de viagem uma gente mirrada, graças a Deus, pois assim o barulho era pouco e ele podia descansar enquanto pensava na vida.

    Vinha inquieto. Mal conhecia os tios e os primos, três rapazes regulando com ele em idade, nunca sequer os tinha visto. Moravam do outro lado da baía na cidade vizinha e mais modesta. Então, para o estudo e o trabalho, teria de se deslocar em barcaças, vinte minutos sobre o mar até o centro rico do Rio de Janeiro que o atraíra para o sul. Seu propósito era trabalhar de dia e estudar à noite – Administração de Empresa – e abrir o leque das perspectivas fosse na iniciativa privada, fosse ao abrigo seguro do Estado.

    Assim ia encadeando o devaneio e mesmo agora, passados bons anos, tinha viva a sequência daqueles acontecimentos, talvez porque encerrassem uma etapa selada no adeus.

    Desembarcou, 24 horas de viagem nas costas, sentiu como se entrasse num mundo sem norte.

(Editora Ouro sobre Azul, 2014. Adaptado)

A relação entre ideias estabelecida pela expressão destacada no trecho do texto está corretamente indicada entre parênteses em: 

Alternativas
Comentários
  • Gabarito na alternativa C

    Solicita-se julgamento das assertivas sobre os conjuncionais destacados:

    A) … como companheira de viagem uma gente mirrada, graças a Deus, pois assim o barulho era pouco… (tempo)

    Incorreta. A conjunção destacada está empregada após construção de natureza interjetiva, explicando-a. É conjunção coordenativa de valor explicativo.

    B) … e ele podia descansar enquanto pensava na vida. (comparação)

    Incorreta. O valor inserto na construção pela conjunção subordinativa "enquanto" é nitidamente temporal.

    C) Então, para o estudo e o trabalho, teria de se deslocar em barcaças sobre o mar até o centro rico… (conclusão)

    Correta. Embora não classificado morfologicamente como conjunção (o volp registra o termo como advérbio ou interjeição) assume função de operador argumentativo e encerra no texto sentido conclusivo, principalmente quando ao final de um contexto enunciativo e equivalente a construções como "por isso", "desse modo", "portanto"...

    D) Seu propósito era trabalhar de dia e estudar à noite… (finalidade)

    Incorreta. O termo destacado é conjunção coordenativa aditiva que indica a simples soma de ideias.

    E) … a sequência daqueles acontecimentos, talvez porque encerrassem uma etapa selada no adeus. (condição)

    Incorreta. O conjuncional "porque", quando empregado em contextos hipotéticos ou imperativos, aqui referendado pelo uso anteposto de "talvez", assume valor explicativo, atuando como conjunção coordenativa explicativa.