SóProvas


ID
1979935
Banca
AOCP
Órgão
Sercomtel S.A Telecomunicações
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Perdoar e esquecer

Quando a vida se transforma num tango, é difícil não dançar ao ritmo do rancor

                                                                                                                                        Ivan Martins

Hoje tomei café da manhã num lugar em que Carlos Gardel costumava encontrar seus parceiros musicais por volta de 1912. É um bar simples, na esquina da rua Moreno com a avenida Entre Rios, chamado apropriadamente El Encuentro.

Nunca fui fã aplicado de tango, mas cresci ouvindo aqueles que a minha mãe cantava enquanto se movia pela casa. Os versos incandescentes flutuam na memória e ainda me emocionam. Soprado pelo fantasma de Gardel, um deles me veio aos lábios enquanto eu tomava café no El Encuentro: “Rechiflado en mi tristeza, te evoco y veo que has sido...”

Vocês conhecem Mano a mano, não?

Essencialmente, é um homem falando com a mulher que ele ama e que parece tê-lo trocado por uma vida melhor. Lembra, em espírito, o samba Quem te viu, quem te vê, do Chico Buarque, mas o poema de Gardel é mais ácido e rancoroso. Paradoxalmente, mais sutil. Não se sabe se o sujeito está fazendo ironia ou se em meio a tantas pragas ele tem algum sentimento generoso em relação à ex-amante. Nisso reside o apelo eterno e universal de Mano a mano – não é assim, partido por sentimentos contraditórios, que a gente se sente em relação a quem não nos quer mais?

Num dia em que estamos solitários, temos raiva e despeito de quem nos deixou. No outro dia, contentes e acompanhados, quase torcemos para que seja feliz. O problema não parece residir no que sentimos pelo outro, mas como nos sentimos em relação a nós mesmos. Por importante que tenha sido, por importante que ainda seja, a outra pessoa é só um espelho no qual projetamos nossos sentimentos – e eles variam como os sete passos do tango. Às vezes avançam, em outras retrocedem. Quando a gente acha que encontrou o equilíbrio, há um giro inesperado.

Por isso as ambiguidades de Mano a mano nos pegam pelas entranhas. É difícil deixar para trás o sentimento de abandono e suas volúpias. É impossível não dançar ao ritmo do rancor. Há uma força enorme na generosidade, mas para muitos ela é inalcançável. Apenas as pessoas que gostam muito de si mesmas são capazes de desejar o bem do outro em circunstâncias difíceis. A maioria de nós precisa ser amada novamente antes de conceder a quem nos deixou o direito de ser feliz. Por isso procuramos com tanto afinco um novo amor. É um jeito de dar e de encontrar paz.

No último ano, tenho ouvido repetidamente uma frase que vocês já devem ter escutado: Não se procura um novo amor, a gente simplesmente o encontra. O paradoxo é bonito, mas me parece discutível. Supõe que o amor é tão acidental quanto um tropeção na calçada. Eu não acho que seja. Imagina que a vontade de achar destrói a possibilidade de encontrar. Isso me parece superstição. Implica em dizer que se você ficar parado ou parada as coisas virão bater na sua porta. Duvido. O que está embutido na frase e me parece verdadeiro é que não adianta procurar se você não está pronto – mas como saber sem procurar, achar e descobrir que não estava pronto?

É inevitável que a gente cometa equívocos quando a vida vira um tango. Nossa carência nos empurra na direção dos outros, e não há nada de errado nisso. É assim que descobrimos gente que será ou não parte da nossa vida. Às vezes quebramos a cara e magoamos os outros. O tango prossegue. O importante é sentir que gostam de nós, e que nós somos capazes de gostar de novo. Isso nos solta das garras do rancor. Permite olhar para trás com generosidade e para o futuro com esperança. Não significa que já fizemos a curva, mas sugere que não estamos apenas resmungando contra a possibilidade de que o outro esteja amando. Quando a gente está tentando ativamente ser feliz, não pensa muito no outro. Esse é o primeiro passo para superar. Ou perdoar, como costuma ser o caso. Ou esquecer, como é ainda melhor.

No primeiro verso de Mano a mano, Gardel lança sobre a antiga amante a maldição terrível de que ela nunca mais voltará a amar. Mas, ao final da música, rendido a bons sentimentos, oferece ajuda e conselhos de amigo, quando chegar a ocasião. Acho que isso é o melhor que podemos esperar de nós mesmos. Torcer mesquinhamente para jamais sermos substituídos - mas estarmos prontos para aceitar e amparar quando isso finalmente, inevitavelmente, dolorosamente, vier a acontecer.

(Disponível em: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2016/01/perdoar-e-esquecer.html)

Em “No outro dia, contentes e acompanhados, quase torcemos para que seja feliz.”, a oração em destaque é classificada como

Alternativas
Comentários
  • É oração subordinada adverbial final.
    Alguns exemplos: para, para que, a fim de que, de modo que, de sorte que...

  • Orações cordenadas são independentes, ligadas pelo sentido: Assindeticas- Saia, deixe me em paz! Sindeticas- Fale a verdade, ou morra calado.

    Orações subordinadas são aquelas ligadas a outras por meio de conjunção ou pronome relativo. 

    Substantiva: Complementa o sentido da oração principal.

    Adverbial: Indica uma circunstância. 

  • Segundo algumas gramáticas, a regência do verbo torcer pode ser verbo transitivo indireto ou intransitivo, porém a estrutura torcer para que tem tradição em iniciar Oração Subordinada Averbial Final.

     

  • Finais: introduzem uma oração que expressa a finalidade ou o objetivo com que se realiza a principal. São elas: para que, a fim de que, que, porque (= para que), que, etc.

  • TEM QUE VERIFICAR O CONTEXTO, NÃO HÁ OUTRA MANEIRA.

     

    BONS ESTUDOS

  • Qual erro da letra A? não estaria complementando o verbo torcer?  

  • Gabarito E

    Excelente dica Murilo M !!!

     

    >>As orações subordinadas adverbiais finais indicam a intenção, a finalidade daquilo que se declara na oração principal.

    Principal conjunção subordinativa final: A FIM DE QUE

    Outras conjunções finais: que, porque (= para que) e a locução conjuntiva para que.

    Por Exemplo:

    Aproximei-me dela a fim de que ficássemos amigos.
    Felipe abriu a porta do carro para que sua namorada entrasse.

     

  • @Concurseira supimpa

    torcer pode ser VI ou VTI = pde preposição "Pelo", isto é, na frase ele está como VI e n precisa de complemento logo nao seria subordinada substantiva.

  • Porque a A está errada?

    Vamos indicar essa para comentário do professor galera !

  • segundo minha análise aqui kkkkkk não pode ser a alternativa A porque as O.S.S.Objetiva Indireta requerem um Objeto Indireto, ou seja, um complemento preposicionado. Que no caso não pode ser o "para" pq esse "para+que" não é preposição e sim uma conjunção que expressa Finalidade que pode perfeitamente ser substituida por "a fim de que". E segundo minha professora o "para que" SEMPRE vai expressar justamente a ideia de finalidade.

    No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. João 1:29

  • Finais: Para que/ A fim de que / porque (sentido de para que)

  • Viu "para",é finalidade.
    GoGo

  • QUAL A FINALIDADE/ PARA QUÊ A TORCIDA??? PARA FINALDIADE DE ser feliz.


    GAB LETRA E

  • Substitua "para" por "a fim de"

    [torcemos] para ISSO [que seja feliz]. Jogo de causa e consequência + tipo de conjunção

    consequência - ser feliz

    causa - torcer

    para - finalidade

  • Precitada demais, vi um VTI e já marquei OI.

  • Discordo totalmente.

    Torcer no sentido de desejar é verbo transitivo indireto (quem torce, torce para algo/alguém).

    Logo, esse "para" é preposição, exigida pela regência do verbo, e não conjunção. Segundo esse entendimento, a letra E não poderia estar correta.