SóProvas


ID
2222845
Banca
IBADE
Órgão
Câmara de Santa Maria Madalena - RJ
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Longe dos olhos, longe da consciência


   Alguns anos atrás os jornais noticiaram, com destaque, que a praça da Sé estava voltando a ser um aprazível ponto turístico de São Paulo.

  A providência higienizadora do nosso marco zero consistiu na retirada dos menores que por lá perambulavam. Com a saneadora medida, a praça estava salva, voltava a ser nossa. A sua crônica sujeira não mais incomodava. Os menores estavam fora, pouco importava a permanência dos marreteiros, pregadores da Bíblia, comedores de faca e fogo, ciganos, repentistas e os saudáveis churrasquinhos e pastéis. Até os trombadões permaneceram. Aliás, é compreensível; é bem mais fácil remover as crianças do que deter os trombadões.

  Anteriormente, competente e sensível autoridade levou dezenas de menores para fora das fronteiras de nosso Estado. A operação expurgo foi também bastante noticiada.

  No Rio de Janeiro a providência teve caráter definitivo. As crianças foram mortas na Candelária.

   Em Belo Horizonte, também há algum tempo, uma operação militar foi montada para retirar das ruas cerca de 500 crianças. A imprensa exibiu fotos de crianças de até quatro anos, várias com chupetas na boca, sendo colocadas em camburões pelos amáveis e carinhosos soldados da milícia mineira, que souberam respeitar as crianças, deixando-as com suas chupetas.

  Riscar as crianças dos mapas urbanos já não está mais nos planos dos zelosos defensores das nossas urbes e da nossa incolumidade física. Viram ser essa uma missão inócua. Retiradas daqui ou dali, passam a habitar lá ou acolá. Saem da praça da Sé, vão para a praça Ramos ou para as praças da zona Leste, Oeste, Norte ou Sul. Saem de uma capital e vão para outra, de um extremo ao outro do país.

  Ironias à parte, cuidar dos menores para evitar o abandono, para suprir as suas carências e para protegê-los da violência que os atinge é obrigação humanitária de todos nós. E, para quem não tem a solidariedade como móvel de sua conduta, que aja ao menos impulsionado pelo egoísmo em nome da autopreservação.

  No entanto novamente se assiste ao retumbante coral repressivo, que entoa a surrada, falsa e enganosa solução da cadeia para os que já cometeram infrações e, para os demais, esperar que as cometam, para irem fazer companhia aos outros.

  A verdade é que sempre quisemos distância das nossas crianças carentes. Longe dos olhos, longe da consciência. A sociedade só se preocupa com os menores porque eles estão assaltando. Estivessem quietos, amargando inertes as suas carências, continuariam esquecidos e excluídos.

  Esse problema, reduzido à fórmula simplista de solução - diminuição da idade -, bem mostra como a questão criminal no país é tratada de forma leviana, demagógica e irresponsável. Colocam-se nas penitenciárias ou nas delegacias os maiores de 16 anos e ponto final. Tudo resolvido.

  A indagação pertinente é por que diminuir a responsabilidade penal só para 16 anos. Há crianças com dez ou oito anos assaltando? Vamos encarcerá-las. Melhor, nascituros também poderiam ser isolados. Dependendo das condições em que irão viver, poderão estar fadados a nos agredir futuramente. Não será melhor criá-los longe dos centros urbanos, isolá-los em rincões distantes para que não nos ponham em risco?

  Parece estar na hora - tardia, diga-se de passagem - de encararmos com honestidade e com olhos de ver a questão do crime no país, especialmente do menor infrator e do menor carente. Chega de demagogia e de hipocrisia. Vamos cuidar da criança e do adolescente. Aliás, não só do carente e do abandonado, mas também daqueles poucos bem nascidos, pois também estavam cometendo crimes. Destes esperamos que os pais acordem e imponham regras e limites, deem menos liberdade, facilidades e dinheiro e mais educação, respeito pelo próximo e conhecimento da trágica realidade do país.

  Em relação aos outros, esperamos que a sociedade e o Estado, em vez de os porem na cadeia, eduquem-nos, deem-lhes afeto e os ajudem a adquirir autoestima, única maneira de os proteger do crime de abandono.

OLIVEIRA, Antônio Cláudio Mariz de. Longe dos olhos, longe da consciência. Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 ago. 2004. Brasil, Opinião, p. A3.

Do ponto de vista da norma culta, a única substituição que poderia ser feita, sem alteração de valor semântico e linguístico, seria:

Alternativas
Comentários
  • Alguns anos atrás os jornais noticiaram =  Há anos os jornais noticiaram.

     

    Tempo transcorrido...

     

    atenção: quase que diariamente vejo/ouço esse erro: Há alguns anos atrás (redundância);

     

    [Gab. A]

     

    bons estudos

  • Gabarito letra A 

     

     A (preposição/ Artigo) x Há

     

    A preposição:  Indica relação de distância ou tempo futuro.

    Exemplos:  Roberta estuda a cinco quadras do serviço.

                      Começarei a trabalhar daqui a uma semana.

     

    A Artigo:  Determina nomes feminos. 

    Exemplo: A casa é verde.

     

    HÁ (verbos): Indica "tempo passado" ou a "existência de algo/alguém" . Deve permanecer na 3ª pessoa do singular, pois é um verbo impessoal. 

     

    Exemplos:  Fiz o concurso há dois dias. 

                      Há três  carros na garagem. 

     

  • a) "Alguns anos atrás os jornais noticiaram= anos os jornais noticiaram.

     

    Há nesse contexto está perfeitamente correto, haja vista que o com relação a tempo indica passado.

  • GABARITO A

     

    O problema é que as palavrinhas  e ATRÁS não combinam! Ou se usa uma ou se usa a outra… As duas juntas não dá! Acaba se repetindo uma ideia que já havia sido passada.

    Quando se usa o verbo haver, no sentido de tempo decorrido, a ideia de passado já está absolutamente clara, visível. Sendo assim, não é necessária a posposição de nenhuma palavra de reforço. Deu para entender?

    Se Raul cantasse “Eu nasci há dez mil anos”, o ouvinte já saberia – pelo verbo haver, que indica tempo decorrido – que a ação ocorreu no passado. Então, usar a palavra atrás se torna, desnecessário. É como dizer, por exemplo, ”subir para cima” ou “descer para baixo“. Esse vício de linguagem é chamado de pleonasmo.

     

    Trecho de uma explicação retirada aqui do QC.

  • Não reclamo de não ter o "atrás" depois de anos (Há anos os jornais noticiaram). Mas o sentido não fica comprometido por não ter o "alguns"? Anos pode dar ideia de 50, 100, 1000 anos, enquanto "alguns", não.

  • Eu e minha velha mania de preconceito com a alternativa "A''. Fiquei procurando respostas para nao marcá-la e não marquei. Errei. Mas é aprendizado.

     

    Abs. FUTURO PC.

  • Apesar de entender a A como alternativa mais correta, semânticamente falando, não passa uma ideia de intensificação do passado no trecho : "Há anos " ?