SóProvas


ID
4881703
Banca
BIO-RIO
Órgão
Prefeitura de Mangaratiba - RJ
Ano
2016
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

O suor e a lágrima
                                        (Carlos Heitor Cony)
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o voo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

(http://www.releituras.com/cony_menu.asp)

Na frase “Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva”, o pronome pessoal oblíquo destacado assume o valor de pronome:

Alternativas
Comentários
  •  “Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva”

    → Temos um pronome obliquo átono com função sintática de adjunto adnominal, possuindo valor de posse. Para facilitar a identificação do valor possesivo é só substituir por um pronome possesivo: encharcou-SUA testa e a calva.

    GABARITO. D

  • O "lhe" pode assumir em alguns casos a classificação de pronome possesivo.

    "enchacou-lhe a testa" = "enchacou a testa dele".

    Lembrando que a aplicação mais vista do "lhe" é como pronome oblíquo átono, excercendo papel sintático de objeto indireto.

    Gabarito letra D!

  • GABARITO D

    Pode ajudar em questões mais complexas:

    Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva”

    Quando possível a troca por algum possessivo como " A sua" = Adjunto adnominal.

    encharcou a sua testa...

  • ME, TE, NOS, VOS, LHE E LHES podem fazer as vezes de pronomes possessivos (sentido de minha, tua, dele, seu, sua...)

    Roubaram-me a carteira (minha)

    Quebrei-lhe os dentes (seus dentes/dele)