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ID
4942678
Banca
CETRO
Órgão
TCM-SP
Ano
2006
Provas
Disciplina
Português
Assuntos

Leia o texto a seguir para responder à questão.


    Como nosso modo de ser ainda é bastante romântico, temos uma tendência quase invencível para atribuir aos grandes escritores uma quota pesada e ostensiva de sofrimento e de drama, pois a vida normal parece incompatível com o gênio. Dickens desgovernado por uma paixão de maturidade, após ter sofrido em menino as humilhações com a prisão do pai; Dostoievsky quase fuzilado, atirado na sordidez do presídio siberiano, sacudido pela moléstia nervosa, jogando na roleta o dinheiro das despesas de casa; Proust enjaulado no seu quarto e no seu remorso, sufocado de asma, atolado nas paixões proibidas – são assim as imagens que prendem nossa imaginação.

    Por isso, os críticos que estudaram Machado de Assis nunca deixaram de inventariar e realçar as causas eventuais de tormento, social e individual: cor escura, origem humilde, carreira difícil, humilhações, doença nervosa. Mas depois dos estudos de JeanMichel Massa é difícil manter este ponto de vista. 

    Com efeito, os seus sofrimentos não parecem ter excedido aos de toda gente, nem a sua vida foi particularmente árdua. Mestiços de origem humilde foram alguns homens representativos no nosso Império liberal. Homens que, sendo da sua cor e tendo começado pobres, acabaram recebendo títulos de nobreza e carregando pastas ministeriais. Não exageremos, portanto, o tema do gênio versus destino. Antes, pelo contrário, conviria assinalar a normalidade exterior e a relativa facilidade da sua vida pública. Tipógrafo, repórter, funcionário modesto, finalmente alto funcionário, a sua carreira foi plácida. A cor parece não ter sido motivo de desprestígio, e talvez só tenha servido de contratempo num momento brevemente superado, quando casou com uma senhora portuguesa. E a sua condição social nunca impediu que fosse íntimo desde moço dos filhos do Conselheiro Nabuco, Sizenando e Joaquim, rapazes finos e cheios de talento.

    Se analisarmos a sua carreira intelectual, verificaremos que foi admirado e apoiado desde cedo, e que aos cinqüenta anos era considerado o maior escritor do país, objeto de uma reverência e admiração gerais, que nenhum outro romancista ou poeta brasileiro conheceu em vida, antes e depois dele. (...) Quando se cogitou fundar a Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis foi escolhido para seu mentor e presidente, posto que ocupou até morrer. Já então era uma espécie de patriarca das letras, antes dos sessenta anos.  

    Patriarca (sejamos francos) no bom e no mau sentido. Muito convencional, muito apegado aos formalismos, era capaz, sob este aspecto, de ser tão ridículo e mesmo tão mesquinho quanto qualquer presidente de Academia. Talvez devido a certa timidez, foi desde moço inclinado ao espírito de grupo e, sem descuidar as boas relações com grande número, parece que se encontrava melhor no círculo fechado dos happy few. A Academia surgiu, na última parte de sua vida, como um desses grupos fechados onde a sua personalidade encontrava apoio; e como dependia dele em grande parte o beneplácito para os membros novos, ele atuou com uma singular mistura de conformismo social e sentimento de clique, admitindo entre os fundadores um moço ainda sem expressão, como Carlos Magalhães de Azeredo, só porque lhe era dedicado e ele o estimava –, motivos que o levaram a dar ingresso alguns anos depois a Mário de Alencar, ainda mais medíocre. No entanto, barrava outros de nível igual ou superior, como Emílio de Meneses, não por motivos de ordem intelectual, mas porque não se comportavam segundo os padrões convencionais, que ele respeitava na vida de relação.

    Sendo assim, parece não haver dúvida que a sua vida foi não apenas sem aventuras, mas relativamente plácida, embora marcada pelo raro privilégio de ser reconhecido e glorificado como escritor, com um carinho e um preito que foram crescendo até fazer dele um símbolo do que se considera mais alto na inteligência criadora.

CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. 3ª ed. ver. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

Sobre o segundo e terceiro parágrafos do texto, levando-se em consideração as recomendações da gramática normativa tradicional, é correto afirmar que

Alternativas
Comentários
  • Algumas considerações:

    B) no segundo período do segundo parágrafo, a expressão “este ponto de vista” refere-se à hipótese de que Machado de Assis NÃO tenha padecido de tormentos sociais e individuais. (O erro está na negação, pois os críticos sempre realçaram os tormentos de Machado de Assis, mas, após os estudos de Jean Michel, esse ponto de vista de o autor brasileiro ter padecido dessas tormentas ficou insustentável)

    "Por isso, os críticos que estudaram Machado de Assis nunca deixaram de inventariar e realçar as causas eventuais de tormento, social e individual: cor escura, origem humilde, carreira difícil, humilhações, doença nervosa. Mas depois dos estudos de Jean Michel Massa é difícil manter este ponto de vista."

    BONS ESTUDOS!!!

  • A questão nos traz perguntas analíticas que não se esgotam em apenas um assunto e é necessário o conhecimento em pontuação, período composto, semântica e morfologia. Vejamos:

    a) Incorreta.

    "os críticos que estudaram Machado de Assis nunca deixaram de inventariar" Temos uma oração iniciado pelo "que" que retoma "críticos" podendo até trocar o "que" por "os quais". Dessa forma temos uma oração subordinada adjetiva restritiva (sem vírgula). O acréscimo de uma vírgula transformaria a oração subordinada adjetiva explicativa. Portanto, não deve isolar com vírgula, pelo contrário, é de livre escolha de quem escreve se vai por vírgula ou não.

    b) Incorreta.

    "Por isso, os críticos que estudaram Machado de Assis nunca deixaram de inventariar e realçar as causas eventuais de tormento, social e individual: cor escura, origem humilde, carreira difícil, humilhações, doença nervosa. Mas depois dos estudos de Jean Michel Massa é difícil manter este ponto de vista."

    Na verdade Machado de Assis padeceu de tormentos sociais e individuais.

    c) Incorreta.

    "Com efeito, os seus sofrimentos não parecem ter excedido aos de toda gente, nem a sua vida foi particularmente árdua."

    A expressão original tem a ideia de adição de ideias, caso coloque "e não" mudaria para ideia de exclusão de ideias.

    d) Correta.

    "Com efeito, os seus sofrimentos não parecem ter excedido aos de toda gente, nem a sua vida foi particularmente árdua. Mestiços de origem humilde foram alguns homens representativos no nosso Império liberal."

    De fato, quando colocamos o artigo definido (a, o) é porque a intenção é de particularizar o substantivo e se caso não coloque, o objetivo é de generalizar o substantivo. Portanto, esta é a alternativa correta.

    e) Incorreta.

    Homens que, sendo da sua cor e tendo começado pobres, acabaram recebendo títulos de nobreza. (REDUZIDA)

    Homens que, apesar de serem da sua cor e ter começado pobres, acabaram recebendo títulos de nobreza. (DESENVOLVIDA).

    Ao se colocar um conectivo de concessão, percebemos que temos uma oração subordinada adverbial concessiva reduzida de gerúndio.

    GABARITO: D

  • N alternativa b, o q não se sustenta e a é a visão dos críticos de realçar e inventar ou o sofrimento de Machado de Assis?

  • Gabarito: D)